Rio de Janeiro, 27 de Abril de 2026

A imprensa e os marginais

Por Mauro Santayana - Ao se tornar jornalista, o indivíduo não faz voto de castidade política, não renuncia ao mundo. O jornalismo devia ser apenas ético, e não técnico, e nada melhor do que o ceticismo para servir de base a uma conduta independente. Independente, e não imparcial. (Leia Mais)

Segunda, 26 de Dezembro de 2005 às 19:01, por: CdB

"Os jornalistas hoje têm muito mais estudo. Sua educação é melhor, freqüentam as melhores faculdades. Isso os fez ficar mais parecidos com as pessoas que estão no poder. Quando eu era jovem, era diferente. Todas as pessoas com as quais eu trabalhei quando comecei no New York Times eram das camadas mais baixas. Não vínhamos de escolas de elite, éramos outsiders, víamos o mundo com ceticismo."
Gay Talese

Transcrevo a parte final da entrevista do jornalista Gay Talese, que se orgulha de continuar outsider, a Marcelo Ninio, da Folha de S. Paulo desta segunda-feira. Ao fazer essa transcrição, posso dizer com tranqüilidade que assino embaixo. Essa tem sido a minha opinião de sempre, e eu a defendi de forma muito clara, quando - contrariando as entidades sindicais da categoria - me opus à exigência de diploma universitário de jornalista para o exercício profissional. Embora pertença à mesma geração de Talese, não freqüentei escolas, nas quais me iniciasse no jornalismo estudantil, como foi o seu caso. Fui direto da vida para o jornal, quando ainda não havia chegado aos 20 anos. Tanto como lá, ou talvez mais do que lá naquele tempo, poucos eram os jornalistas com diploma universitário; normalmente os diplomados eram bacharéis que preferiam o jornalismo à advocacia. Havia, ainda, estudantes de direito, de origem modesta, que faziam "bico" nos jornais, a fim de engordar a parca mesada recebida da família. Vir de baixo nos conferia a vantagem de ter uma visão vertical do mundo, ao contrário dos procedentes da alta classe média ou das elites, que só tinham (e só têm, hoje) uma experiência de vida bem diferente, circunscrita ao seu meio. Éramos céticos todos os jornalistas honrados. Eram também céticos aqueles que, embora vindo da classe operária, desonravam a profissão, como achacadores ou embutidos. Aquele tempo não era um tempo de santos, nem de ingênuos.

Temos que ver o nosso ofício com menos presunção e mais modéstia do que aquela que Keynes aconselhava aos economistas, que, a seu ver, deviam igualar-se aos dentistas. Sou mais radical, porque os dentistas não só normalmente ganham mais, mas também devem ter aquela precisão técnica da qual prescindimos. Nosso ofício devia ser apenas ético, e não técnico, e nada melhor do que o ceticismo para servir de base a uma conduta independente. Independente, e não imparcial. O jornalista não é, por outro lado, emasculado político. No Brasil de antes de 1964 quase todos os jornais eram partidários, quando não eram venais. Seria melhor se fossem independentes, mas, pelo menos, sendo partidários, permitiam aos profissionais mais destacados trabalhar naqueles mais próximos de sua posição ideológica ou política, ou de sua própria venalidade.

Ao se tornar jornalista, o indivíduo não faz voto de castidade política, não renuncia ao mundo. Ao contrário. Mas há - e isso é importante lembrar - o compromisso com os fatos. O jornalista pode até mesmo defender um criminoso, se a sua consciência o leva a isso, mas não pode falsear as informações sobre o crime cometido. E os jornalistas de opinião, qualquer seja ela, devem ter toda a liberdade, sem falsear os fatos, a fim de que os leitores possam pesar os argumentos de uns e de outros, de direita e de esquerda, do governo e da oposição, antes de escolher seu caminho.

As relações entre o jornalismo e o poder são difíceis. Os jornalistas conscientes de sua condição sabem que, salvo os poucos casos excepcionais de afinidade intelectual e ideológica, sem falar na amizade espontânea que surge no convívio profissional, os poderosos de um modo geral não nos estimam. Procuram sempre usar os jornalistas para os seus objetivos, como diz Talese em seu depoimento. Quando muito têm algum respeito pelos jornalistas independentes.

O jornalista norte-americano tem sido um crítico veemente do "establishment" de seu país, como reitera nessa entrevista, ao desmascarar o govern

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