Rio de Janeiro, 22 de Maio de 2026

A hora republicana de Lula

Quarta, 15 de Junho de 2005 às 06:31, por: CdB

O presidente Lula está decidido a ir até o fim, e é bom que o faça. Mas não poderá cair na tentação de um governo com o PSDB. É necessário que, ao reformar o seu governo, entenda que os homens de bem deste país preferem até mesmo um governo que realize menos, mas que realize com decência.


Qualquer acordo que se faça, nestas horas, entre o governo e a oposição, a fim de esfriar o ânimo da cidadania contra a corrupção dos poderes republicanos, só servirá para represar a ira. Ao que parece, o presidente Lula está decidido a ir até o fim, e é bom que o faça. Mas não poderá cair na tentação de um governo com o PSDB.

Como já dissemos, neste mesmo espaço, ele é maior do que o seu partido. Mas se faz necessário que, ao reformar o seu governo, entenda que os homens de bem deste país preferem até mesmo um governo que realize menos, mas que realize com decência. A velha teoria de quem não importa que se roube, desde que se façam obras, deve ser esquecida. O ideal seria que o governante fosse, mais que probo, vir probissimus.

Ocorre que esse homem perfeito não existe. Se não podemos exigir que o chefe de Estado seja casto, podemos pedir que tenha as mãos limpas, ao tratar da coisa pública. Se não podemos exigir que seja culto e erudito, podemos pedir que tenha o senso comum. O mais importante é que saiba qual é a sua responsabilidade na liderança de um povo.

Admitindo-se que o presidente tenha confiado em demasia em seus correligionários e aliados - e quem conhece o poder, sabe que o chefe é sempre o último a saber - está na hora de, sem alarde, sem libelos acusatórios, livrar-se dos infiéis e tentar formar novo ministério. O melhor seria que dispensasse, nessa escolha, os parlamentares, e buscasse na sociedade os novos dirigentes do poder executivo.

Se não der certo, amém: como dizia Getúlio, todo ministério é de experiência. Não é por acaso que, nos regimes presidencialistas, o ministro é admissível e demissível "ad-nutum", ou seja, com o simples oscilar da cabeça, no gesto de aceitar ou de negar. Como se noticia, o presidente estaria também - e agindo com prudência e lógica - disposto a diminuir o número de ministérios.
Com todo o respeito que temos pela cultura, o assunto não estaria mal cuidado se fosse entregue a um secretário especial, subordinado ao Ministério da Educação. Os governos não criam cultura. O que podem fazer é conservar o patrimônio cultural do povo e estimular os criadores. Bons administradores, que se dediquem a isso em tempo integral, e não tenham o cargo como vitrine, saberão cuidar bem do assunto. Quando, além de bons administradores, como foram Rodrigo Mello Franco de Andrade, no Brasil, e André Malraux, na França, são também intelectuais, melhor ainda. Mas é difícil entender por que o excelente poeta e músico Gilberto Gil foi escolhido ministro da Cultura.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, publicada no domingo (12), Miro Teixeira disse que não dá para colocar meia-sola na Constituição. O governo e os seus aliados estão falando em realizar imediatamente a reforma política, mas a cidadania não pode mais aceitar uma mudança dessa grandeza se ela for realizada pela atual legislatura. Quem se dedica à vida pública corre o risco de perder a legitimidade do mandato mesmo sem culpa. É a doutrina de César: não basta ser honrado, é preciso parecer honrado. E a cidadania já não confere à atual legislatura os poderes constituintes. Qualquer emenda à Carta Maior é ato constituinte.

A idéia de convocação de uma assembléia constituinte autônoma, que se dissolva tão logo promulgado o novo diploma, começa a ganhar novos adeptos no Congresso. É certo que a ela se opõem alguns líderes partidários, com a presunção de que podem administrar a crise e dela tirar proveitos eleitorais. Ocorre que as novas revelações que se esperam, e cujo teor circula à boca pequena em Brasília, tornará ainda maior a impaciência dos cidadãos. Ainda agora se infor

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