Rio de Janeiro, 18 de Setembro de 2026

A herança perversa

Por Mauro Santayana - O novo escândalo, envolvendo altos funcionários do Ministério da Saúde, trouxe a este jornalista a memória de um diálogo com Tancredo, durante a ação política, comandada pelo mineiro, que levou o regime militar à exaustão e ao fim. (Leia Mais)

Quinta, 27 de Maio de 2004 às 07:48, por: CdB

O novo escândalo, envolvendo altos funcionários do Ministério da Saúde, trouxe a este jornalista a memória de um diálogo com Tancredo, durante a ação política, comandada pelo mineiro, que levou o regime militar à exaustão e ao fim. Dizia Tancredo que, de quase todo o descalabro havido, o Brasil poderia sair, em vinte anos de governos eficientes, na reconstrução do sistema educativo, na recuperação da economia, na afirmação política externa. "Mas da corrupção vamos levar muito mais tempo. O lobismo, as comissões nas encomendas públicas, o "por fora" generalizado, criaram uma cultura do suborno e do peculato do qual custaremos muito mais a sair. Essa gente fez a administração do país perder a consciência da honra".

Tancredo entendia o financiamento privado das campanhas eleitorais como inevitável deformação do sistema político. "Sem essa contribuição, somente os ricos conseguem chegar ao poder". Por isso acreditava, seriamente, que o sistema parlamentarista, com o voto distrital, seria capaz de reduzir a promiscuidade entre o poder econômico e o Estado. Infelizmente não tinha muita razão: governos parlamentaristas são tão infectados quanto os presidencialistas e, em alguns casos, mais ainda. Basta-nos, como exemplo, o caso da Itália e a longa duração do governo Berlusconi.

A grande vantagem de alguns regimes parlamentaristas, nesse caso, é a existência de uma burocracia de ofício, permanente em certos pontos delicados da administração. Mas nem isso serve de vacina absoluta: os escândalos na França (bem menores do que os ocorridos na Itália) mostram que os corruptos sempre sabem "dar um jeito".

A lenta retomada do processo democrático (e seria exagero achar que já temos um sistema realmente democrático) não conseguiu nos livrar dessa endemia putrefata. Talvez não tenha havido mais denúncias de corrupção, em toda a História do Brasil, do que nos oito anos de Fernando Henrique. A diferença entre ele e Fernando Collor era a de que, com o alagoano, havia um maior número de operações de varejo, a cargo de Paulo César Farias e seus rapazes. No governo de Fernando Henrique, tivemos, entre outros, os escândalos do Banco Central e a sub-avaliação das empresas estatais privatizadas, e privatizadas com financiamento do FAT. Ainda que nada se venha a provar de corrupção explícita, a cidadania tem o direito de não acreditar que tamanha entrega do patrimônio nacional, a preços de banana, e com financiamento do vendedor, possa ser atribuída à incompetência ou à ingenuidade dos negociadores. Se outras razões para a suspeita não houvesse, haveria a do enriquecimento posterior - e súbito - de muitos dos altos servidores públicos que se encarregaram do programa.

Se não há como garantir o Estado contra os corruptos, há como garantir a sociedade contra a impunidade. O governo agiu como deveria agir, no caso do Ministério da Saúde, colhendo todas as provas antes de prender os culpados. Cabe agora ao Ministério Público e ao Poder Judiciário agirem com presteza, na obediência aos prazos, para impedir o que já vem ocorrendo: a impunidade em decorrência da prescrição dos crimes.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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