His life was gentle, and the elements
So mix'd in him that Nature might stand up
And say to all the world: "This was a man!"
Sua vida foi digna, e as forças nele
Eram tais que a Natureza a se erguer
Diria ao mundo: "Este era um homem!"
Marco Antonio sobre Brutus
William Shakespeare, Julius Caesar.
Brizola merece a epígrafe como epitáfio, ainda que seu estilo político fosse mais comparável com o arrebatamento de Júlio César na peça do que com o equilíbrio patrício e republicano buscado por Brutus. Mas ao fazer tal comentário Marco Antônio, em diálogo com Otávio Augusto (que irá provocar sua morte, com a de Cleópatra), está ressaltando junto com o futuro imperador que Brutus, em sua aventura temerária, não tinha cobiças pessoais, mas pensava no poder em função do bem-estar da nação e do Estado, ambos confundidos.
Com Brizola se extingue a estirpe dos caudilhos. Em seu destino se comprovou que ao estilo dos caudilhos cabia já um nicho na história; era a cicatriz de um Brasil que não existe mais. O que é um caudilho? É um herdeiro da tradição ibérica do Campeador e do Quixote, liderando uma arregimentação cabocla fascinada e protegida num círculo particular de poder, exercido tanto pelas armas nos momentos mais rudes como pelas palavras na política, o que é uma arma nada desprezível.
Um caudilho era capaz de generosidades e de desmandos, de lances de lucidez misturados com uma opacidade do olhar que o impedia de ver a própria perdição, fascinado por uma narcisista lealdade a si mesmo. O caudilho político trazia para a cena política urbana, povoada de massas emergentes, um ressaibo da vida erma no pampa, povoada de espanto perante a solidão.
A palavra "caudilho" chegou ao português através do castelhano. Segundo o Houaiss, ela se formou nos primórdios do século XIV, tempos da Reconquista na Ibéria perante os muçulmanos. Na sua composição entrou uma derivação de "caput", "cabeça", que deu "capit", e "capitellum", e ainda "capus", que depois veio a dar "capo", em italiano. De "capit" veio "capitaneus", "capitão", o "principal". Esta derivação está ligada a "capital", que também tem um significado de "coisa vital", "raiz da vida". E há também um parentesco com "caud-", que acabou significando "extremo", como em "cauda" ou "coda", termo musical. Mas é importante lembrar também que daí veio "caudal", que significa "torrente impetuosa", aquela que desce a encosta unindo a origem e o destino de modo desabrido.
Portanto em "caudilho" encontramos: cabeça, cabecilha, chefe de bando, capitão, ímpeto, uma mistura de cálculo de liderança com atitudes extremas e rompantes, sem o que o caudilho não se afirma nem lidera. Para a ética do caudilho importa menos a coerência na defesa de interesses, como para o político afeito ao liberalismo, e menos ainda a consistência com uma análise radical, como para o militante revolucionário. Importa mais a devoção ao ímpeto do momento, sem o que ele perde o contato com o ethos da liderança imediata, da carga, da conquista da posição próxima como se ela fosse o horizonte da própria existência. Sem essa conquista o caudilho perde o contato com a própria alma, torna-se uma sombra de si mesmo.
Portanto para o caudilho político a condição de classe ou a defesa do interesse de uma classe é uma espécie de prólogo, necessário, mas não suficiente, para o empreendimento da conquista como um valor em si. Essa conquista é ao mesmo tempo coletiva e individual, e reúne em si tanto a dedicação a uma causa ou a uma lealdade que é de conjunto, quanto o traço da sobranceria pessoal, que é individual e intransferível, embora o caudilho possa fazer a cortesia de ceder a passagem a quem reconheça como mais capacitado num certo momento. Para o caudilho a guerra é permanente; pode até haver uma paz assinada, pela qual ele dará a vida; mas o acordo de conveniência lhe é estranho, porque rompe com a necessidade de empenhar a p
A herança do caudilho
A exposição da herança e da dívida histórica para com os caudilhos trabalhistas que o PT carrega encontrou seu ponto fulcral na eleição de 1989. Ali Brizola viu ruir seu sonho de chegar à Presidência. O responsável por isso não foi Collor, o futuro vencedor, mas Lula. (Leia Mais)
Terça, 29 de Junho de 2004 às 08:41, por: CdB