No Jornal Nacional, o espanto: os sem-terra estavam sendo alimentados com carne e, em vez de fazer suas necessidades na rua, tinham banheiros químicos ao seu dispor
20/04/2011
Ana Maria Amorim
Lembro de quando fui ao cinema ver o nacional “O homem que copiava”. Do pouco que me recordo da trama, sei que o personagem de Lázaro Ramos planejava matar o pai de uma namorada, em uma tramóia que envolvia explosão. Para tentar desviar a atenção de todos sobre o fato mais importante, a morte de alguém, o personagem tem a grande sacada: por uma galinha dentro do armário. Assim, a galinha sobreviveria à explosão e chamaria a atenção dos olhares que buscam os detalhes: eis, infelizmente, o olhar da imprensa. O plano funciona. Lá estava a dúvida maior da imprensa, uma galinha a passear pelo cenário de um crime.
Aqui na Bahia, tivemos também a nossa galinha. No início da Jornada Nacional pela Reforma Agrária, a pergunta central dos jornalistas dos grandes meios de comunicação daqui (grandes no sentido de tamanho, obviamente) era sobre a ocorrência ou não de confrontos com a polícia. Tanto que a abordagem foi até surpreendente: usaram bonitinho o termo “ocupação”, chamaram as ações do movimento de “pacíficas”, recorte difícil de encontrar nesses jornais.
Na telinha, da filial daquela grande emissora (mesmo uso do adjetivo), uma chamada interessante. Perguntavam com certa solidariedade ao telespectador: Por que a Reforma Agrária ainda não saiu na Bahia? Ótimo, é está também a nossa pergunta. Uma rápida matéria mostrou os sem-terra e falava na importância de se fazer tal Reforma. Mas, é claro, não é uma repentina mudança de comportamento da imprensa, apenas uma forma de atacar o próprio estado, que não possui a mão carlista dando tapinhas nas costas. É a mesma tática de mostrar com tanta insistência o que não mostravam há anos atrás, uma espécie de campanha para desfazer o nome de quem senta na cadeira do governo e da prefeitura de Salvador. Tem todo o direito a mídia de fazer isso, desde que não se cale quando o barco mudar de comandante.
Mas, voltando à galinha, ela apareceu. Foi com a ocupação da Secretaria de Agricultura, a Seagri. No Jornal Nacional, o espanto: os sem-terra estavam sendo alimentados com carne, que despautério! E mais, em vez de fazer suas necessidades na rua, tinham banheiros químicos ao seu dispor. Por mais que autoridades afirmassem que era uma questão de segurança e saúde, este foi o foco da mídia desde então. Inclusive, com a desocupação, os títulos dos jornais mostravam que havia acabado “a ocupação na qual os sem-terra recebiam carne”. Eis a galinha no armário.
O que acabou não foi a ocupação em que os sem-terra receberam carne. Acabou a ocupação em que os sem-terra enfrentaram dia e noite na chuva noturna e na tarde de sol infernal de Salvador, debaixo de uma desconfortável estrutura de lona preta. Acabou a ocupação na qual os sem-terra lutavam por um direito, pelo cumprimento de acordos que o próprio Estado já havia feito com eles. Acabou uma ocupação de três mil trabalhadores que estavam lá pedindo a atenção do estado para que se fizessem escolas nos assentamentos, que incentivassem a produção da pequena agricultura, que melhorassem a infra-estrutura, enfim, que cumprissem os direitos constitucionais. O que acabou, portanto, foi a ocupação, e não a luta.
Em uma marcha, naquela manhã de terça-feira, um policial veio conversar comigo. Veio tentar entender melhor o que acontecia. Ele me disse que queria que terminasse logo aquela ocupação. Eu garanti a ele que quem mais queria que aquilo acabasse de uma vez era os sem-terra. “Para isso não acontecer, a resposta é fazer o que tanto prometeram”. Não fui eu quem disse isso, foi o policial. Um bom caminho para entender melhor isso, talvez seja ignorando a galinha no armário.
Ana Maria Amorim é jornalista.