Rio de Janeiro, 23 de Abril de 2026

A gaiola dos sandeus

Por Flávio Aguiar - Os ventos não estão para tucano nas frentes agitadas das políticas interna e externa. E também não favorecem, nos últimos tempos, o poleiro dos seus aliados. Prova disso é a mudança súbita de tática das oposições diante da "Lista de Furnas". (Leia Mais)

Quinta, 09 de Fevereiro de 2006 às 17:17, por: CdB

Reina grande agitação na gaiola tucana. As penas estão eriçadas, os bicos estão em posição de ataque. De natureza, acomodar bicos de tucanos em espaço estreito é tarefa mais difícil do que acondicionar melancias em geladeira. E com a disputa entre Serra e Alckmin devastando a unidade tucana, com o Grão-Tucano FHC a assoprá-la, não se sabendo ao certo se o sopro vem para apaziguar a disputa ou para fazer como brisa em brasas, a situação fica ainda mais complicada. Já no poleiro pefelista ao lado, as aves de rapina afiam os bicos.

Da possível carniça petista, se Lula for derrotado em outubro, lhes sobrará uma vice-presidência, como de costume, com os cargos, prebendas e sinecuras conexas. Se não houver a derrota do atual presidente, poderá cair-lhes no colo o terceiro orçamento do país, o da cidade de São Paulo, em estado onde têm sido mais um coadjuvante problemático na popa do que um protagonista de proa no esquife de sua coalizão. Uma eventual carniça tucana também pode lhes servir.

Mas agitação ensandecida na gaiola também tem causas exteriores. Os ventos não estão para tucano nas frentes agitadas das políticas interna e externa. E também não favorecem, nos últimos tempos, o poleiro dos seus aliados. Prova disso é a mudança súbita de tática das oposições diante da famosa (na internet) ou famigerada (na imprensa conservadora) "Lista de Furnas". Houve uma tentativa de enfurná-la; mas não deu certo. E deixando o relator da CPI dos Correios, Deputado Osmar Serraglio, pendurado na brocha, as oposições deram uma guinada e decidiram aprovar a convocação do sr. Dimas Toledo, a quem é atribuída a autoria da lista de pefelistas e tucanos envolvidos em operações de caixa dois.

Em parte do noticiário da imprensa, a menção da Lista de Furnas vem sempre acompanhada dos comentários de que ela é inconsistente e tem imprecisões, junto com matérias para desacreditar quem a entregou à Polícia Federal, o sr. Nilton Monteiro. Apesar de ter sua convocação aprovada em agosto do ano passado, Monteiro jamais foi chamado. O deputado Serraglio chegou a dizer recentemente que não valia a pena investigar a lista porque isso abriria nova frente e não haveria tempo para tanto, um argumento de pouco calado nesta maré tempestuosa que começa a virar os antes ufanos barquinhos das oposições. Mas estas operações não deram certo por duas razões.

A primeira é que o que concede verossimilhança à Lista de Furnas (deixo a apuração de sua autenticidade para quem de direito, a Polícia Federal) é o fato de que a versão de que apenas políticos petistas e seus aliados se beneficiaram de operações eleitorais de caixa dois é algo que ofende a inteligência. A segunda é que o martelar incansável das hostes conservadoras no parlamento e na imprensa de que, no caso dos petistas e próximos, provas eram coisas dispensáveis, bastando indícios, voltou-se contra seus próprios pés e dedos.

Durante meses, com arsenal moderno, essas hostes conservadoras, transformadas em hordas engravatadas e encanetadas de linchamento, promoveram uma reedição do que fora a "República do Galeão", em 1954. Naquele episódio que levou Vargas ao suicídio, oficiais da Aeronáutica, com apoios no parlamento e na imprensa, montaram uma investigação própria e paralela no Galeão a partir do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda. Em nome de investigar as ligações entre o atentado e o Palácio do Catete (o que deveria mesmo ser investigado, mas através dos canais previstos na ordem republicana), ali se enxovalharam os preceitos mais comezinhos dos direitos constitucionais, chegando-se até à prática da tortura. Nos episódios de 2005/2006 não houve tortura física, mas sim psicológica, e também se enxovalharam direitos, reputações, com base em ilações, suposições, depoimentos marcados por um estrelismo com paralelo apenas no dos inquisidores, numa cruzada cujo objetivo aparente foi e é o de moralizar a política, mas cujo fim real terminou sendo o de apagar a raça da esque

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