A vaia de um Maracanã inteiro, lotado, é uma sensação ruim. Muito ruim. Principalmente, se o alvo dessas vaias é o presidente da República, convidado para um ato internacional que o Rio abriga. E não é um evento qualquer, trata-se da realização dos Jogos Pan-Americanos. Não é à toa que o sentimento de mágoa se abateu, nesse fim de semana, sobre a distante e quieta Brasília. Se alguns eleitores do prefeito Cesar Maia, insatisfeitos com o volume de recursos federais alocados no Rio de Janeiro e com o prestígio de Luiz Inácio Lula da Silva, resolveram acertar as contas com ele, erraram no ato e no local. Ali, sentado junto com os outros chefes de Estado, não estava apenas o torneiro mecânico que venceu as últimas eleições presidenciais no país. A personagem ali era a Presidência da República, que representava a nação anfitriã dos maior congraçamento esportivo das Américas. Logo, não vaiaram o político, mas o próprio Brasil.
As vaias soaram como uma revanche mal arrumada, uma mostra feia da falta de educação de um grupo minoritário, mas bem ensaiado, capaz de colocar a perder parte do brilho de uma festa que não deixava nada a dever a nenhum país do mundo. A noite estava bonita, bonita demais para ser estragada por esse apupo fora de hora. Valeram os milhares de ingressos que o prefeito distribuiu aos quatro ventos pela cidade, aos seus eleitores. Em parte, ajudaram a lotar o Maracanã e a deixar mais vistosa a abertura do evento. Mas acentuaram para a mídia internacional e aos opositores mediáticos de plantão o tom oposicionista e raivoso dos ex-integrantes do Partido da Frente Liberal (PFL).
Se este foi mais um dos factóides do prefeito, compreende-se o sentido do ato perverso e atravessado. Mas, de tão óbvio, termina por significar apenas uma pequena amostra do cadinho político entornado no Rio de Janeiro, que em pouco ou nada acrescenta à realidade pan-americana. Nem fazia sentido algum, naquele momento ou em momento algum, no decorrer desta festa que prima, em sua origem, pela amizade, a desportividade e honra. Mesmo as guerras, diante da pira reproduzida no evento, cessavam no passado, onde brilhava a chama do espírito olímpico. Romper o compromisso de toda a sociedade com um dos códigos mais altos da convivência entre os homens é um ato vil.
Tudo o que os mal-educados conseguiram, com a manifestação de intolerância, foi entristecer um dos mais belos momentos já registrados na história desta cidade maravilhosa. Por alguns segundos, lembraram que a política pode ter uma face horrível, deformada. Mais um pouco e teriam roubado a festa, salvou-a o bom senso dos homens de bem.
Gilberto de Souza é editor-chefe do Correio do Brasil.