Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

“Europa não aprendeu com as lições da história”, diz ministro das Finanças da Grécia

Em entrevista, Yanis Varoufakis disse que enquanto não mudarmos de rumo da história, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união.

Quinta, 29 de Janeiro de 2015 às 08:50, por: CdB
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Para o ministro Yanis Varoufakis, o poder deve ser rotativo
“A Europa não aprendeu com as lições da história e, enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união”. A declaração é do novo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, em entrevista para a rede pública austríaca ORF. O novo membro do governo grego do Syriza foi um dos 74 economistas de 20 países que assinaram o manifesto internacional que apelou à reestruturação da dívida portuguesa e apoiou o manifesto das 70 personalidades portuguesas. – Teve que pensar muito para entrar na política? – Foi uma decisão grave. Porque eu entro na política para realizar uma tarefa que sempre pensei que tinha que levar a cabo. Tem a ver com as negociações entre a Grécia e a União Europeia, em caso de vitória do Syriza, trata-se de um projeto e de uma perspectiva extremamente difíceis. Por outro lado, eu sou um acadêmico, sou um cidadão ativo, que estou habituado a diálogos com uma troca de aprendizado. – Está disposto a permanecer num governo por mais tempo? – Não. Não desejo fazer carreira política. Agora, para mim, seria bom que o nosso governo tivesse sucesso na renegociação de um acordo com a Europa que tornasse a Grécia sustentável, e que depois outras pessoas viriam. O poder deve ser rotativo, ninguém deveria se prender a ele. – Por que muitas pessoas da Europa setentrional não temeram que os cortes nos direitos laborais nos anos 90 pudessem ser presságio do mesmo tipo de coisas que agora ocorrem na Grécia? – Acho que tudo é culpa de Esopo, escritor grego, e sua fábula da formiga e da cigarra: a formiga trabalha duro, não desfruta da vida, guarda dinheiro (ou valor), enquanto a cigarra se limita a descansar ao sol, a cantar e a não fazer nada, e depois vem o inverno e põe cada uma no seu lugar. Desgraçadamente, na Europa predomina a estranhíssima ideia de que todas as cigarras vivem no Sul e todas as formigas no Norte. Quando, na realidade, o que há são formigas e cigarras em todo o lado. O que aconteceu antes da crise - é a minha revisão da fábula de Esopo— é que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul, banqueiros do Norte e banqueiros do Sul, por exemplo, se aliaram para criar uma bolha, uma bolha financeira que os enriqueceu enormemente, permitindo-lhes cantar e descansar ao sol, enquanto as formigas do Norte e do Sul trabalhavam, em condições cada vez mais difíceis, até nos tempos bons: conseguir que as contas quadrassem em 2003, em 2004, não foi nada fácil para as formigas do Norte e do Sul; e depois, quando a bolha, que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul tinham criado as cigarras do Norte e do Sul puseram-se de acordo e decidiram que a culpa era das formigas do Norte e das formigas do Sul. A melhor forma de fazer isso era confrontar as formigas do Norte com as formigas do Sul, contando-lhes que no Sul só viviam cigarras. Assim, a União Europa começou a fragmentar-se, e o alemão médio odeia o grego médio, o grego médio odeia o alemão médio. Não tardará que o alemão médio odiará o alemão médio, e o grego médio odiará o grego médio. Isso já ocorre e é o que aconteceu nos anos 30, e Karl Marx estava completamente equivocado quando disse que a história se repete como farsa. Aqui a história repete-se. – No tocante à decisão do Sr. Draghi de inundar o mercado com bilhões de euros, você disse que isso é como usar uma pistola de água num incêndio florestal. – Acho que o Sr. Draghi tem boas intenções. Quer manter unida a zona euro, e é muito competente. Faz o que pode, dadas as restrições que tem. Não tenho a menor dúvida - ainda que ele nunca o admita - de que entende cabalmente que o que está a fazer é demasiado pouco e demasiado tarde: uma pistola de água perante um grande incêndio florestal. Mas ele acha que até uma pistola de água é melhor que nada. Se se declarou um incêndio, ele preferiria servir-se de um canhão de água, e teria preferido começar a usá-lo antes, mas não era permitido porque na Europa temos uma Carta do BCE que o ata de pés e mãos e o lança perante o monstro da deflação, o que é muito injusto para o BCE. E assim será enquanto a Europa não compreender o que é imperiosamente necessário do ponto de vista económico para sustentar uma união monetária, enquanto não entender por que se dá toda esta fragmentação e a crescente renacionalização de tudo, incluída agora a flexibilização quantitativa do senhor. Porque essa fragmentação e essa renacionalização é exatamente o oposto do que deveríamos estar a fazer, apoiar, consolidar. A Europa não aprendeu com as lições da história, e enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união. – A propósito dos planos do Syriza para revitalizar a indústria na Grécia, Theodoros Paraskevopoulos disse que se trata também de recuperar as dimensões do setor farmacêutico na Grécia, porque tem uma boa base. Como é isso? – Ao que sei temos boas empresas farmacêuticas que têm exportações sólidas. Precisamos ajudá-las e precisamos criar indústrias assim também noutros setores. – Sobre discussão do memorando: entre que fatores acha que a Sra. Merkel está condicionada? – Acho que a Alemanha está dividida. Os interesses da banca em Frankfurt não são os mesmos que os da banca média, tal como os interesses das pequenas e médias empresas na Alemanha central não são os mesmos que os da Siemens e da Volkswagen, etc. É muito diferente ter a capacidade produtiva exclusivamente localizada na Alemanha, como as empresas pequenas e médias, ou estar mergulhado na globalização e ter fábricas na China e no México. E a Sra. Merkel é uma política astuta que se preocupa de que haja consenso entre esses interesses sobre o que fazer com o euro, com o nosso Banco Central e com a periferia. A Sra. Merkel, simplesmente, não moverá qualquer peça até que haja um consenso que lhe garanta a sobrevivência política. Mas esse consenso não é possível. Por exemplo, o que se passou em 2012 com o anúncio unilateral por parte do Sr. Draghi das Operações Monetárias sobre Títulos, ou mesmo ontem, com a Flexibilização Quantitativa.  A Sra. Merkel pode dizer “apoiarei o Sr. Draghi, façam o que fizerem”. Mas, não é um consenso-consenso, mas ela está a calibrar as movediças placas tectónicas sob os seus pés. E o modo como o faz é muito astuto. Eu a convidaria a pensar no seu legado para além da mera sobrevivência, e gostaria que considerasse a possibilidade de que daqui a 10, 20, 100 anos, a Europa pudesse falar não só de um plano Marshall que salvou a Alemanha, mas também de um plano Merkel que salvou o Euro.
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