Rio de Janeiro, 25 de Março de 2026

A escolha nada inocente das palavras

Por Marco Aurélio Weissheimer: O que significa defender o corte de gastos públicos e a diminuição de gastos com pessoal? Qual a tradução dessa expressão para a vida real das pessoas, em um país como o Brasil? Por que o dinheiro público destinado aos pobres é chamado de "gasto", enquanto que o vai parar nas mãos dos ricos é chamado de "investimento"?

Domingo, 08 de Outubro de 2006 às 10:23, por: CdB

A disputa política em períodos eleitorais e não eleitorais é, entre outras coisas, uma disputa pela palavra, uma disputa pelo significado das palavras. A hegemonia neoliberal das últimas décadas expressou-se de modo avassalador no terreno discursivo. Algumas palavras e expressões são usadas diariamente, vestidas com um manto de verdades supostamente inquestionáveis, como se descrevessem exatamente o que pretendem descrever. Descrevem mesmo? O economês é um terreno fértil desta disputa. A escolha das palavras nesta área, assim como ocorre também na política e na cultura, está longe de ser inocente. São sempre escolhas fardadas, fardadas para a guerra ideológica.

O que significam, por exemplo, expressões como "choque de gestão", "corte de gastos correntes", "melhorar o gasto público", "o governo gasta muito e gasta mal", "redução das despesas do governo", "redução das despesas com pessoal"? Nos últimos anos, tais expressões tomaram o lugar de outras que tiveram livre e entusiasmado trânsito na década de 90. Expressões como "estado mínimo", "privatização", "livre jogo dos mercados", "globalização". As derrotas políticas e econômicas que a vida real infringiu a tais expressões e seus respectivos significados obrigaram seus formuladores a realizar uma maquiagem conceitual. Assim, hoje, esses agentes políticos e econômicos não falam mais abertamente de privatizações e da suposta eficácia do estado mínimo, mas sim de choque de gestão, da necessidade de reduzir os gastos do governo. O que mudou, afinal de contas?

A lógica da máscara
Há fortes indícios para se pensar que o que mudou foram apenas as palavras, a casca. As idéias permanecem as mesmas, só que com uma roupagem diferente. Um dos principais indícios dessa metamorfose é o esforço para ocultar o que elas de fato significam. A lógica desse esforço é a lógica da máscara, do disfarce. O atual momento político do país fornece fartos exemplos. Por que a preferência, por exemplo, pelo uso da palavra "gasto" ao invés do uso de "investimento". Alguém aí já viu um candidato propondo a diminuição de investimentos públicos? Já o "corte de gastos" é moeda corrente, sendo apontada como índice de modernidade e do caminho a ser seguido. Onde terminam, afinal, os gastos e começam os investimentos? Qual a fronteira entre esses dois termos em um país com as desigualdades sociais como as que o Brasil apresenta? Quando vamos ao supermercado (aqueles que conseguem ir, é claro) comprar café, arroz, feijão, alface e iogurte, isso é gasto ou investimento? Comprar livros é gasto ou investimento? E ir ao cinema?

Aqueles que falam em "cortar os gastos públicos correntes" costumam, quando chegam a governos, cortar investimentos em educação, saúde e assistência social. Façamos uma rápida comparação entre os últimos governos do Brasil. O principal símbolo do governo Fernando Henrique Cardoso foi a privatização. Essa política, segundo apregoavam suas lideranças, era fundamental para inserir o país na modernidade. O resultado é bem conhecido de todos e resultou na derrota dos tucanos e de seus aliados nas eleições de 2002. Já no caso do governo Lula, há um razoável consenso de que a principal marca (ou uma das) é o Bolsa Família. O que vemos hoje na disputa política e eleitoral? O candidato Geraldo Alckmin, herdeiro do governo FHC, diz que vai "manter e ampliar o Bolsa Família", mas faz isso por absoluta impossibilidade política de se contrapor ao programa. O principal conceito de sua campanha, na verdade, é o famoso "choque de gestão", expressão que costuma andar de mãos dadas com "corte de gastos públicos correntes". Quais gastos públicos serão cortados para fornecer a eletricidade do "choque de gestão"?

A teoria do bolo
O candidato tucano não fala sobre onde vai cortar para aplicar seu "choque de gestão", mas um dos formuladores de seu programa de governo rompe o silêncio. Em entrevista à Folha de São Paulo (14/08/2006), o economista Luiz Carlos Mendonça

Tags:
Edições digital e impressa