Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

A emoção do mercado de capitais

Por Luiz Gonzaga Belluzzo - Ex-guru de Wall Street, Henry Kaufmann disse o que os economistas da primeira metade do século XX já sabiam: os mercados financeiros apresentam inclinação muito forte para gerar problemas de liquidez. (Leia Mais)

Quarta, 10 de Dezembro de 2003 às 16:10, por: CdB
O debate sobre a movimentação de capitiais
Prossegue o debate sobre a livre movimentação de capitais, aqueles que se deslocam entre as economias nacionais na busca frenética por oportunidades de arbitragem ou de ganhos especulativos, sempre envolvendo apostas quanto aos movimentos de preços dos ativos denominados nas diversas moedas.

Estas massas de capital financeiro estão concentradas sob o comando de grandes investidores institucionais. São fundos de pensão, fundos mútuos e fundos de hedge que, operando em vários praças financeiras, valem-se de técnicas sofisticadas de avaliação e de proteção contra os riscos de mercado e de liquidez - o chamados derivativos - e usam intensamente o crédito bancário para "alavancar" as posições.

As sucessivas crises cambiais e financeiras que vêm assolando a periferia demonstram cabalmente o que já se suspeitava: os modelos de avaliação de risco e o uso de derivativos para a proteção contra os movimentos de preços adversos são incapazes de prevenir situações de "stress". Isto não diz respeito apenas à possibilidade de uma flutuação mais intensa e inesperada dos preços dos ativos, mas, sobretudo à disseminação da "corrida para a liquidez", engendrando a propagação do pânico e a realização de perdas.

O ex-guru de Wall Street, Henry Kaufmann reiterou o que os economistas da primeira metade do século XX já sabiam: os mercados financeiros "securitizados" apresentam uma inclinação muito forte para gerar problemas de liquidez, que podem ser seguidas de violenta contração do crédito. Diz ele que, já no limiar do século XXI, os defensores dos mercados liberalizados, desregulamentados e securitizados ainda teimam em experimentar as emoções do final do século XIX ou dos famigerados anos 20 e 30 do nosso século moribundo.

A relativa calmaria que prevaleceu ao longo das três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial deve ser atribuída a duas características dos mercados financeiros de então: a prevalência do crédito bancário sobre a emissão de títulos negociáveis (securities) e às restrições impostas por quase todos os países ao livre movimento de capitais. As crises de liquidez eram mais dóceis às intervenções dos Bancos Centrais e tinha menor capacidade de contágio.

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e editor da revista Carta Capital.
Tags:
Edições digital e impressa