Ouço e vejo multidões louvarem a Deus! Mas, vivem divididas! Há judeus, divididos em correntes; muçulmanos, divididos em correntes; cristãos, divididos em correntes; e correntes, cuidadosamente conservadas, polidas e reforçadas, a impedir a aproximação e convívio tolerante, mutuamente proveitoso!
É como se fossem totalmente estranhos, uns aos outros, mesmo quando bem próximos... No entanto, todos se dizem filhos de Deus e herdeiros de Suas promessas. Seriam, portanto, irmãos! Mas, não se tratam assim. Preferem fazer aquilo que mais dói aos olhos de um pai: disputar entre si! Às vezes se matam em Seu nome e de sua herança... Matar um irmão, para agradar ao pai? Será que não há herança suficiente para todos?
Não há uma fundamental e imensa incoerência em tudo isso?
Não há dúvida disso, principalmente quando vejo descendentes de povos que eram bárbaros e pagãos, até a Idade Média, associarem, erroneamente, religiões seculares às práticas de fanáticos.
Fanáticos existem em todas as religiões, mas, infelizmente, existem os que querem transformar essa exceção em regra. E todos têm algo em comum: independentemente da crença que afirmam professar, eles parecem ser simpatizantes de uma mesma doutrina, universal: a do rancor!
Seus adeptos, de qualquer religião, desrespeitam outras crenças, como se a sua fosse a única. Alguns, irracionalmente, ou intencionalmente, chegam a transformar o desvario irresponsável de seus "iguais", num ato de todo um país, de toda uma religião; como se todos, até as crianças, fossem cúmplices.
Então, ouço alguns desses líderes conclamarem seus seguidores à vingança, em nome de Deus, e de seus santos e profetas. Vejo manifestações iradas e atos de vandalismo apoiados por eles, seguidos de revides, de igual ou superior intensidade e dramaticidade!
Vejo transformarem a fé, que deveria iluminar, no medo, que não deixa ver e viver; e num fogo, que queima, mas não purifica; só marca ou destrói!
Vejo e ouço incentivarem seus rebanhos, desde a infância a discriminar, matar ou morrer... Enfim, a transformar o mundo num inferno, para merecerem o paraíso. E tudo sem questionar!
Ouço que alguns oferecerem dinheiro para vingar ofensas a sua fé com assassinatos. O paraíso não é o bastante?
Essas atitudes são símbolos da excelência da fé professada?
Parece que milênios de história humana não serviram para nada! Poucos parecem ter aprendido com os erros do passado! Poucos parecem ter assimilado a beleza e perfeição dos ensinamentos fundamentais! A força primitiva e destrutiva do: "Olho por olho! Dente por dente!", prevalece; e qualquer motivo é suficiente para reabrir cicatrizes, e culpar inocentes por crimes cometidos quando sequer seus ascendentes haviam nascido. De fato, só nesses preceitos essas lideranças parecem se irmanar: no ódio, no rancor e na exaltação da vingança. Aproximação? Só para guerrear!
Então, pergunto:
- Será que Deus, com sua magnificência, sabedoria e infinita bondade, não perdoaria o que eles condenam? Aliás, não deveria ser esse o principal papel de todas os líderes religiosos: buscar o perdão, a conciliação e a paz?
Infelizmente, essa divisão interessa a muitos, e a ignorância guerreira e violenta encara o perdão e o pacifismo como fraqueza e covardia, das quais se deve tirar proveito malicioso, e não compactuar e irradiar... Assim, os empreiteiros da discórdia preferem continuar a construir suas várias Torres de Babel, no afã de atingir, isoladamente, maiores "altitudes", sem notar que esse "ar rarefeito" só lhes afeta o discernimento...
Sinto e vejo, com temor, o início de outra escalada assimétrica de violência. Uns parecem testar os limites da insanidade dos outros, até a fronteira da irracionalidade explosiva e cega. A doutrina do rancor se sobrepõe à do amor, que está no cerne de todas as religiões! Ou não?
Será que esses "líderes espirituais", de todas as religiões, serão capazes