Por Celso Lungaretti - O jornal da ditabranda continua publicando péssimos editoriais sobre os acontecimentos dos anos de chumbo, talvez porque o papel então desempenhado pelo Grupo Folha foi nada menos que indecoroso, daí seu desconforto ao tocar nesses assuntos.
Colunista convidado Celso Lungaretti relembra a época em que o grupo Folha dava apoio à ditadura militar
O jornal da ditabranda continua publicando péssimos editoriais sobre os acontecimentos dos anos de chumbo, talvez porque o papel então desempenhado pelo Grupo Folha foi nada menos que indecoroso, daí seu desconforto ao tocar nesses assuntos.
Para quem quiser conhecer mais detalhes sobre tal papelão, recomendo a leitura deste meu artigo. Vale, contudo, destacar alguns trechos de um texto autocrítico publicado pela própria Folha de S. Paulo quando da comemoração do seu 90º aniversário:
"A partir de 1969, a 'Folha da Tarde' alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da 'Folha da Tarde' a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN...
Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da 'Folha da Tarde' à repressão contra a luta armada.
Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da 'Folha' sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins [o grifo é meu]".
Sempre negou, mas ninguém, em sã consciência, acreditou!
A visão que a Folha dá atualmente da faina da Comissão Nacional da Verdade e das reações militares é bem na linha de botar panos quentes e aparar arestas. Mas, se estas continuam existindo e machucando, é porque a Justiça não foi feita e tudo indica que jamais o será.
O mais inaceitável no editorial desta 2ª feira, 29 (acesse a íntegra aqui), são estes dois parágrafos:
"O principal mérito da Lei da Anistia, promulgada em 1979, foi o de permitir que o processo de democratização do país se desse num clima desanuviado dos ressentimentos que pesavam sobre ambas as partes em conflito.
A esmagadora maioria dos que se envolveram na luta armada, a começar da própria presidente Dilma Rousseff (PT), não tem problemas em fazer a revisão histórica de sua estratégia, fundada não só num romantismo revolucionário juvenil, mas também na exaltação da violência e num desprezo ao que então se desqualificava com o termo 'democracia burguesa'".
A redemocratização do País se deu, na verdade, em clima dos mais tensos, com a oposição tendo de engolir a anistia que igualou as vítimas a seus algozes porque era este o preço a pagar pela libertação dos presos políticos e a permissão de volta dos exilados. Mesmo assim, num primeiro momento foram excluídos os militantes condenados por ações armadas.
Foi, portanto, mediante a mais escrachada chantagem que os oposicionistas acabaram cedendo e concordando com o que sabiam ser uma abominação; afinal, tiranos não podem anistiar a si próprios em plena tirania. Fico a imaginar os criminosos de guerra nazistas munindo-se em 1944 de um habeas corpus preventivo semelhante. Se lhes houvesse ocorrido este brilhante expediente, teriam porventura evitado o julgamento de Nuremberg?
Quero ser mico de circo se tal quadro caracteriza um "clima desanuviado dos ressentimentos que pesavam sobre ambas as partes".
Quanto aos que pegamos em armas contra a ditadura, não me lembro de nenhum de nós fazendo a "exaltação da violência", muito menos em função de "romantismo revolucionário juvenil".
Sabíamos que se tratava de uma opção quase suicida. Tínhamos plena consciência de que, sendo capturados, as piores torturas eram uma certeza e a morte, uma forte possibilidade. Só assumimos riscos tão extremos porque era a única maneira de continuarmos confrontando os usurpadores do poder sob o terrorismo de estado desmedido que eles desencadearam a partir do AI-5.
Ao editorialista responsável por tais despropósitos, eu sugiro a leitura deste artigo no qual relembro quão sofrido era nosso dia a dia. Não encarávamos uma barra tão pesada por fetiche pelas armas nem por arroubos adolescentes. Nosso motivo era bem outro: o de não suportarmos ver 90 milhões de brasileiros tratados como crianças tuteladas, intimidadas e castigadas.
E, como não sobrava "democracia burguesa" nenhuma no Brasil dos anos de chumbo, também não havia motivo nenhum para a desprezarmos naquele momento. Cada um de nós tinha algo muito mais imediato com que se preocupar: a própria sobrevivência, para continuar lutando o máximo possível, pois cada dia poderia ser o último.
Finalmente, no tocante a fazermos a revisão histórica da nossa estratégia, eu quero deixar bem claro que não me incluo na citada "esmagadora maioria" (aliás, desconheço qualquer pesquisa que respalde tal dimensionamento, o qual parece ser, isto sim, um chute conveniente).
A luta armada, na verdade, se constituía na única estratégia viável depois que todos os caminhos de contestação pacífica ao regime foram fechados e as torturas se tornaram bestiais e generalizadas, com os tribunais impedidos até de nos concederem habeas corpus.
O resultado foi trágico e até hoje não consigo aceitar o assassinato das duas dezenas de valorosos companheiros que conheci pessoalmente, incluindo um amigo de infância.
Mas, o Brasil seria um país de pobres coitados se nem sequer uns poucos milhares de brasileiros houvessem se recusado a viver debaixo das botas. Pagamos um preço altíssimo por termos salvado a honra nacional. Merecemos respeito.
PT pode ter participado do assalto aos fundos de pensão de estatais
Enquanto a campanha de Dilma Rousseff insufla nos eleitores o medo daquilo que, segundo sua versão distorcida e falaciosa, Marina Silva faria se eleita, o noticiário mostra o que o PT tem realmente feito em seus três mandatos presidenciais consecutivos. É chocante ao extremo.
Quem acompanha o meu trabalho sabe que considero a corrupção inerente ao capitalismo e impossível de ser erradicada enquanto não dermos um fim à exploração do homem pelo homem, daí eu sempre ter evitado me alinhar com a bandeira do combate à dita cuja -até mesmo em 2008, quando boa parte da esquerda oportunisticamente tomava partido na guerra de gangues que se travava nos bastidores do poder, entre os esquemas favorável e contrário à fusão de duas grandes empresas de telecomunicações.
Mas, a reportagem de capa da Folha de S. Paulo deste domingo, 28 (cuja íntegra pode ser acessada aqui) embute uma acusação que, caso sua veracidade seja confirmada, é a mais grave que se fez até hoje ao PT, pelo menos para a sensibilidade dos homens de esquerda: a de ter levado os fundos de pensão da Petrobrás e dos Correios a investirem em papéis podres de empresas fantasmas ligadas ao doleiro Alberto Youssef, causando-lhes prejuízos de dezenas de milhões de reais.
Já me deixava profundamente enojado o fato de o PT haver se envolvido com personagens da estatura moral de Marcos Valério, Henrique Pizzolatto, Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, agora, se o Partido dos Trabalhadores tiver mesmo participado do roubo de recursos destinados à complementação da aposentadoria dos trabalhadores, aí será melhor mudar de nome (Partido dos Criminosos do Colarinho Branco?). Ou se refundar. Ou se dissolver.
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Naufrago da Utopia. Tem um ativo blog com esse mesmo título.Direto da Redaçãoé um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.
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