Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

A década perdida

Sexta, 01 de Julho de 2011 às 08:15, por: CdB

Os um pouco mais velhos, igual eu,ou antigos, como queiram, lembram de como chamávamos a década de 80 – a décadaperdida – e apelidamos a década de 90 – a década desperdiçada.

Osanos oitenta, tempos de grande mobilização social – resistência democrática,Diretas-Já, Constituinte livre e soberana, movimentos sociais combativos,greves gerais -, foram tempos de grande energia política, de muitos sonhos, demuita luta e mobilização social. Por outro lado, no campo econômico, inflaçãoaltíssima, desemprego crescente, concentração de renda, aumento brutal dadívida externa, perda do poder de consumo da população, redução da produçãoindustrial, baixo crescimento da economia, etc. Por isso, a década perdida.

Jáos anos noventa foram duros, muito duros. Eleições perdidas em 1989, o sonho dosocialismo indo água abaixo, o neoliberalismo tomando conta de tudo. Desempregobrutal, privatizações a mil, Estado mínimo, crescimento da miséria, da fome eda marginalização social, ausência de políticas públicas, economia comcrescimento próximo de zero. A mobilização social sofreu duras conseqüências.Tempo de pura resistência, de tentar a sobrevivência de pessoas e movimentossociais. A década desperdiçada.

Agora,2011, abro o jornal e vejo a manchete: "Década perdida ameaça os EUA” (ValorEconômico, 14.06.11, A12). Esfrego os olhos para ser se li direito. Está lá:"Os EUA encontram-se no meio de uma década perdida, com redução da populaçãoempregada, da renda e da arrecadação tributária.” O ‘diagnóstico lúgubre’ (asaspas são do jornal) foi apresentado pelo economista (famoso, grifo meu)Lawrence Summers, ex-reitor da Universidade Harvard e diretor do ConselhoNacional de Economia da Casa Branca até o ano passado, em artigo divulgado estasemana por agência de notícias. Summers alerta que a economia dos EUA corre orisco de enfrentar anos de estagnação ao estilo do Japão, se não forem tomadasmedidas de estímulo.

Parao professor Amir Khair, parecem esgotados os instrumentos monetários para tiraro país da crise. Lá. Segundo o jornalista Vinícius Torres freire (EUA: o buracoé mais embaixo, Folha, 05.06.11, B4 Mercado), " a grande recessão de 2008-2010foi a que mais dizimou empregos nos EUA desde a Segunda Guerra. Talvez omercado de trabalho nos EUA esteja avariado por crise de longo prazo. O saláriomédio real estagnou desde 2008; menos gente trabalha. Parece haver um problema‘estrutural’ de emprego nos EUA. E a situação ‘conjuntural’ não parece apontarsaída para o atoleiro. O preço das casas está em depressão profunda, asfamílias, superendividadas, assim como o governo federal e os locais, quedemitem aos montes.” E a manchete da Folha (13.06.11): "O pior não passou. Ondade otimismo na economia global está cada vez mais distante; nos EUA, retomadapós-crise é frágil, e Europa vive temor de novo abalo financeiro.”

Masnão eram eles os donos do mundo? Mas não foram eles os criadores eestimuladores da política econômica neoliberal?

Aomesmo tempo, leio outra manchete e notícia na mesma semana: "Com emprego emalta, renda é recorde. Massa salarial somou R$ 35,5 bilhões em maio; taxa dedesemprego se manteve estável, em 6,4%” (Estado de São Paulo, 23.06.11,Economia B3). Aqui. Segue a matéria do jornal: "O emprego em alta fez a massasalarial bater recorde em maio, acendendo o alerta de que mais dinheirocirculando pode dar novo impulso à inflação. O rendimento dos trabalhadoressomou R$ 35,5 bilhões no mês, maior valor da série do IBGE, com avanço de 1,6%em relação a abril e de 6,6% sobre maio de 2010. A taxa de desemprego nas seisprincipais regiões metropolitanas ficou estável em maio, em 6,4%, mesmo índicede abril. O rendimento médio real habitual dos ocupados no país foi de 1,1% emrelação a abril e de 4% ante maio de 2010.” Diz Cimar Azeredo, gerente depesquisa do IBGE: "Tem mais dinheiro circulando, com a população ocupada e orendimento crescendo. Tem mais gente com poder de compra.”

Sim,não estou sonhando, a notícia refere-se ao Brasil. O mundo virou de pontacabeça? Desemprego lá, emprego aqui? Renda crescendo aqui e decrescendo lá? Épara estar alegre? Claro que não. Milhões sofrem as conseqüências,especialmente os pobres e os trabalhadores. De lá. Aumentou a fome nos EUA (jácriaram, copiando do Brasil, o Bolsa Família americano) e na Europa africanos easiáticos são tratados como animais e enxotados.

Hárazões para estar otimista? Ou sonhar? Há. Como diz Amir Khair: "O melhor éapostar as fichas da saúde econômica e financeira do Brasil naquilo em quesomos bons: alto potencial de mercado interno inexplorado e posição estratégicaem commodities e alimentos. Assim, é bom descartar as políticas do pé no freio,que podem fragilizar o país ante a nova crise externa em marcha. O aliado maisimportante é o crescimento econômico via incorporação de amplas camadas dapopulação ao mercado formal de trabalho, que é a meta perseguida pelo governo.É melhor deixar os dogmas no campo da fé religiosa” (Questionar dogmas, Estadode São Paulo, 20.06.11, Economia B6).

Maisque isso, é oportunidade de pensar e propor um modelo de desenvolvimento queenfrente a desigualdade econômica e social e leve à distribuição de renda, quemsabe até reavivar a utopia de um novo projeto de sociedade. As experiênciaslatino-americanas dos últimos anos dão sinais do novo. Num mundo em crise, épossível. Num mundo globalizado, onde meia dúzia de oligopólios e monopóliosdomina o comércio de alimentos e a tecnologia e onde o mercado financeiro é overdadeiro mercado, não é fácil. Mas é urgente e necessário.

Emprimeiro de julho de dois mil e onze.

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