Rio de Janeiro, 23 de Outubro de 2026

A cultura da corrupção na vida pública

Segunda, 29 de Agosto de 2011 às 07:34, por: CdB

Nestes últimos meses, assistimos a um espetáculopolítico deprimente. As palavras mais faladas e mais ouvidas são:favorecimento, barganha, falcatrua, propina, superfaturamento, desvio de verbase outras semelhantes. É impressionante ver como se usa com tanta naturalidade odinheiro público em benefício próprio. Tornou-se uma cultura, um jeito de ser eviver. Acha-se isso normal e o anormal é agir de maneira diferente. Quem nãotira proveito da situação é considerado um ingênuo, um bobo. Parece que acultura da corrupção se alastrou em todos os níveis da vida pública: municipal,estadual e federal. E não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Basta ler onoticiário nacional e internacional.

No Brasil, a imprensa escrita e falada, sobretudodestes últimos meses, está repleta de reportagens e artigos sobre a corrupçãona vida pública. Só em nível federal, segundo as matérias divulgadas emrevistas e jornais, a suspeita de corrupção atingiu sete ministérios: CasaCivil, Transportes, Turismo, Cidades, Minas e Energia, Agricultura, e Defesa.Houve muitas demissões ou pedidos de demissão (por causa das denúncias) deministros e outras pessoas influentes nos ministérios. Tudo isso gerou umacrise no governo da presidenta Dilma Rousseff. Discute-se muito sobre a chamada"faxina” que a presidenta realiza em sua gestão, causando intrigas edescontentamentos no meio de políticos da base aliada.

Esperamos que essa "faxina” seja realizada porquestões éticas e não por razões oportunistas, como as denúncias na imprensa oua preocupação com os níveis de popularidade do próprio governo federal.Infelizmente, em nossa sociedade capitalista, para as chamadas "pessoas debem”, o mais importante não é "ser éticos”, mas "parecer éticos”. É o impérioda hipocrisia e do farisaísmo.

Chega de tanta bandalheira e de tanta impunidadelegalizada e institucionalizada! A sociedade não aguenta mais! Exige que oscriminosos de "colarinho branco” sejam processados, julgados e punidos, e que odinheiro roubado seja devolvido aos cofres públicos.

Costuma-se falar de "cultura da corrupção”, mas, narealidade, trata-se de "anticultura”. Cultura é tudo o que o ser humano cria econstrói para a sua própria humanização em benefício de todos. Anticultura éjustamente o contrário: é tudo que sistematicamente destrói e desumaniza o serhumano, como a prática da corrupção, da injustiça e da opressão.

"A cultura, em sua compreensão mais extensa,representa o modo particular com que os seres humanos e os povos cultivam suarelação com a natureza e com seus irmãos, consigo mesmo e com Deus, a fim deconseguir uma existência plenamente humana" (Documento de Aparecida – DA,476).

Numa visão bipolar, a cultura, pode ser cultura davida e cultura da morte. A "cultura dominante de acumulação egoísta"(DA, 540) e a cultura que "se caracteriza pela auto-referência doindivíduo" (DA, 46) - como é o caso da cultura da corrupção na vidapública - representam subculturas da "cultura da morte" (DA, 185). A"cultura da solidariedade" (DA, 199) ou a "cultura cristã dasolidariedade" (DA, 480), da "responsabilidade" (DA, 406b), do"compartilhar" (DA, 540) e de "paz" (DA, 442) representamsubculturas da "cultura da vida".

Diante da "crescente cultura da morte que afeta a vida em toda assuas formas" (DA,185) e que, de fato, é uma "anticultura",precisamos promover e construir a "cultura da vida" (DA, 358, 435,543). A "cultura cristã da solidariedade" deve "neutralizar acultura de morte" e "gerar modelos culturais alternativos para a sociedadeatual”.

Para os cristãos/ãs Jesus Cristo é "a verdadeúltima do ser humano, o modelo no qual o ser humano se realiza em todo o seuesplendor ontológico e existencial” (DA. 480). Uma outra cultura é possível!Sejamos os promotores/as e os construtores/as dessa outra cultura!

Goiânia, 23 de agosto de 2011.

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