CPMF ou CSS, seja lá o nome do imposto, tem essa pecha diante a opinião pública porque o governo não abre o jogo e diz a verdade: Quer de volta a forma excepcional de acompanhar a movimentação financeira, desde a mais graúda até as pequenas, nas contas de todos os cidadãos que se utilizam dos bancos para os mais diversos fins, entre eles a corrupção e a evasão fiscal. "Nunca, em tempo algum, na história do país", parafraseando o ilustre comandante em chefe das forças armadas brasileiras, o governo conseguiu controlar, com tamanha acuidade, as idas e vindas do dinheiro nas milhões de contas bancárias, quanto no tempo de FHC e Lula, até a derrubada, no Congresso, da Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF).
O imposto do cheque, como são conhecidos expedientes como a CPMF ou, agora, a Contribuição Social para a Saúde (CSS), tem ainda a vantagem de arrecadar um dinheirinho bom para os cofres da União. Ou seja, o Big Brother fiscal nas contas de quem passa cheque ainda recebe uma bela contribuição para hospitais, universidades e institutos de pesquisa dedicados à causa da saúde. Mais do que um recurso extra para um dos setores mais penalizados da nação, a CSS significa, para o governo, a possibilidade de continuar a monitoração política e fiscal sobre uma sociedade que expõe, nesta questão, se deseja ou não a presença do governo em assuntos de natureza tão significativa quanto o destino do seu próprio dinheiro.
Para a maioria avassaladora da população, pouco ou nada significa se o governo aplica ou não esse rastreador na ponta da caneta de quem assina uma folha de cheque. Não quer dizer absolutamente nada, para cerca de 75% dos brasileiros, com rendimentos abaixo de R$ 3 mil mensais, pois sequer esse imposto atinge tal camada da população. Aos 25% restantes, no entanto, a CSS é uma barreira quase intransponível para o caixa 2, para a transferência de propinas, o sumiço de alguns milhões de reais e toda a insana e imensa lista de maldades cotra o dinheiro público. Esse argumento, com certeza, levou o governo à apertadíssima vitória, no Plenário da Câmara, noite passada.
O discurso de quem é contrário à CSS como mais um imposto a perturbar a vida dos brasileiros, no entanto, precisa ser diferenciado, pois reúne três correntes distintas. A primeira, liberal extremada, esteio de partidos como o Democrático (DEM), o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e de amplos setores do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), adota o discurso contra a nova contribuição por razões puramente ideológicas. São adeptos do modelo de Estado mínimo e pronto. Essa é a forma como eles pensam a nação brasileira. Querem o Estado o mais longe possível de seu patrimônio e o guardam longe dos olhos do público, prontos a acumular sempre mais e mais riquezas em transações lucrativas. Essa fração do Congresso Nacional responde pela maioria absoluta dos interesses daqueles 25% a ser fiscalizados pela CSS.
Mas há, ainda, dois segmentos nas casas legislativas mais altas do Brasil que têm interesses confessáveis unicamente sob pena de prisão, para não apoiar a volta do imposto do cheque. O primeiro deles, opulento, extrato do baronato tupiniquim, daquela cêpa antiquíssima que colonizou o país, são donos de verdadeiras máquinas de lesa-pátria, mantenedores de currais eleitorais seculares, geralmente fincados nos rincões da nação. O segundo, mais moderno e eficaz, defende as grandes corporações do capital internacional. Neste setor do Congresso atuam os parlamentares de aluguel. Vassalos do dinheiro sem fronteira se colocam ao inteiro dispor dos interesses de seus patrões, e esses somente precisam de uma fresta para entrar e sair com o que puderem carregar do Brasil. Na época de FHC e sua onda de privatizações, a abertura era tanta que nem precisaram se mobilizar contra a criação da CPMF, pois não lhes passava pela cabeça a fria em que iriam se meter, tempos depois