Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2026

A Cruz: equívocos de interpretação

Quinta, 08 de Setembro de 2011 às 13:11, por: CdB

Nodia 14 de setembro a Igreja celebra a "exaltação da Santa Cruz”. A festa recordaa época em que a fé cristã, tornada religião livre, e aos poucos hegemônica naEuropa, propiciou aos cristãos cunharem símbolos de sua identidade, quefavorecessem sua afirmação social e cultural.

Ocontexto histórico da fragmentação do império romano, favoreceu a constituiçãode uma nova entidade, com as suas diversas dimensões de ordem religiosa,cultural, social e econômica.

Noâmbito do antigo império, foi emergindo a Igreja. Ela expressava o grandenúmero de pessoas que passaram a fazer da nova fé religiosa, um elo devinculação social, com suas práticas e seus símbolos.

Entreestes símbolos, sobressaiu a cruz. Pela maneira como ela evocava acontecimentosfundantes da nova fé, a cruz se tornou o símbolo mais eloqüente, com a vantagemde ser ao mesmo tempo simples na sua configuração, e profundo na evocação dosfatos centrais relativos a Cristo.

Foientão que cresceu a curiosidade por encontrar a cruz autêntica usada naexecução de Cristo no calvário. Assim, o interesse pelo símbolo, despertou ointeresse pelo objeto.

Nosinícios da Igreja primitiva não se encontra nenhum rastro deste interesse peloobjeto concreto da cruz de Cristo. Ao contrário, os fatos testemunham o grandeimpacto causado pela presença viva do Ressuscitado. Se ele estava vivo, poucointeressavam os instrumentos de sua morte. Não se comprova nenhum interesse emidentificar ou guardar objetos que tinham estado em relação pessoal com Cristo.Ninguém se preocupava em saber onde teria ido parar o manto de Cristo, onde estariao cálice usado por ele na última ceia, e assim por diante.

Sódepois de estruturada como entidade, a Igreja passou a cultivar os símbolos desua identidade. Foi então que emergiu a importância da cruz, como portadora deuma simbologia muito profunda, e bem caracterizada.

Todosímbolo recebe o seu significado do relacionamento concreto com os fatos que oconstituíram como sinal. Cultivando esta vinculação, se aprofunda o significadodo símbolo. Quanto mais, por exemplo, se relaciona a cruz com o testemunho deamor que Cristo expressou por ela, mais a cruz se torna símbolo de suamensagem.

Mas,por contraste, quanto mais se vincula um sinal que já tinha o seu significadopróprio, com contextos contrários a este significado, o símbolo inverte suamensagem no novo contexto associado a ele.

Foio que aconteceu com a cruz. Usada na morte de Cristo, passou por sua primeiragrande metamorfose simbólica, deixando de ser sinal de condenação, para setornar, para os cristãos, sinal de salvação.

Masinfelizmente, os cristãos usaram a cruz como símbolo das "cruzadas” contra ospovos que habitavam a antiga "terra santa”. De tal modo que, para esses povos,até hoje a cruz é maldita, pois evoca os equívocos cometidos nestes episódioshistóricos.

Tantoque os cristãos precisam agora relativizar o uso da cruz no seu relacionamentocom os muçulmanos.

Atéentre os próprios cristãos, o uso da cruz não é unânime. Viajando pelo interiordos Estados Unidos, dá para distinguir claramente a diferença de cemitérios.Onde os túmulos são encimados pela cruz, o cemitério é católico. Onde ostúmulos são desprovidos de cruz, o cemitério é protestante.

Pareceque os cemitérios acabaram entrando na conversa de hoje, para dizer que osdesentendimentos humanos são quase fatais. Até nossas bandeiras podem se tornarsímbolos equivocados, se não soubermos distinguir, afinal de contas, entre osignificante e o significado.

Apropósito, o sábio provérbio latino nos adverte: "Cave a signatis!”. Isto é,cuidado com os marcados por símbolos!

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