Se dois dos principais objetivos do programa Fome Zero são a extinção da fome e o desenvolvimento de ações estruturais que possam combater a pobreza, a população negra (parda e preta) merece atenção especial. Negros e negras em 1999 representavam 45% da população brasileira, mas correspondiam a 64% da população pobre e 69% da população indigente. O governo do presidente Lula tem reafirmado que a fome no Brasil tem cor e vitimiza mais duramente a população negra. Por outro lado, desde seus primeiros pronunciamentos, o ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano da Silva, vem salientando a importância da consideração do fator racial como dado diferencial nas condições de vida da população brasileira e, portanto, como um dado a ser incluído na formulação e execução das políticas públicas. Paradoxalmente, a questão das relações raciais se encontra praticamente invisível nas diferentes dimensões do Fome Zero. Como se justifica esse silêncio?
A inércia e a omissão da sociedade brasileira ante a discriminação racial que atinge metade da sua população caracterizam um silêncio eloqüente, que pode ser constatado onde menos se espera. O que dizer da falta de resposta consistente, diante de dados contundentes do racismo no Brasil, os quais vêm ganhando manchetes nos principais jornais? O movimento negro vem pressionando vigorosa e insistentemente a sociedade em busca de uma resposta mais efetiva, delineando um aparente diálogo de surdos. Mesmo setores considerados progressistas, que defendem ideais mais democráticos e empreendem ações para combater a pobreza e a exclusão, não escapam ao embaraço quando se deparam com a dimensão racial do problema. Não raro, ouvimos importantes autoridades do poder público, pessoas bem reputadas e informadas (tais atributos poderiam permitir a interpretação de que, em algum momento de suas vidas, teriam tido acesso à informação da existência de um problema de natureza racial na sociedade brasileira) insistirem na argumentação de que se trata de um problema de classe. Tal insistência poderia ser atribuída à mera ignorância ou à má-fé, ao racismo, enfim. Negros e negras não são discriminados porque são pobres, mas são pobres porque são discriminados. Se o próprio texto do programa Fome Zero nos revela que a pobreza tem como ingrediente principal as desigualdades, um recorte racial na política de segurança alimentar representa um passo fundamental para o equacionamento da problemática das seculares desigualdades raciais brasileiras.
No curso de minha experiência de mais de dez anos de trabalho no âmbito das relações raciais – em instituições ligadas ao mercado de trabalho, no movimento sindical, no poder público ou nas empresas – pude comprovar que, no que diz respeito a relações raciais, não há diferença nos argumentos e ações de um sujeito identificado ideologicamente com o pensamento de esquerda, do centro ou de direita: as ilações, a resistência e a omissão aparecem justificadas de modo surpreendentemente similar, no mais das vezes simplista, denotando uma total falta de reflexão. É nesse ponto que se encontra a minha inquietação: setores que representam interesses tão distintos, frutos de visões de mundo tão diferentes, apresentam, paradoxalmente, identidade discursiva e comportamental, em face da problemática das relações raciais.
A pobreza brasileira tem estreita relação com a desigualdade na distribuição de recursos, e não na escassez dos mesmos: "Isso significa dizer que o Brasil, tanto em termos absolutos como em relação aos diversos países do mundo, não pode ser considerado um país pobre, mas, sem dúvida alguma, deve ser considerado um país extremamente injusto". Com isso, nascer negro ou negra está diretamente relacionado à possibilidade de estar vinculado à pobreza, pois a "população negra concentra-se no segmento de menor renda per capita da distribuição de renda do país".
IDH em preto e branco
Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026
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