O The New York Times publicou, recentemente, uma matéria sobre o funcionamento das 20 agencias federais americanas encarregadas, pela administração Bush, de formar a opinião pública nacional e internacional através de matérias e entrevistas de autoridades, pré-fabricadas e distribuídas prontas para os jornais e as televisões de todo mundo. Resultado: cada vez mais, a grande imprensa americana e européia se move de forma sincronizada, e às vezes se tem a impressão que os fatos se transformam em acessórios de grandes campanhas e mobilizações publicitárias, em escala global.
Isso ocorreu, por exemplo, com a recente reunião de Bruxelas - no dia 22 de fevereiro passado - entre o presidente Bush e os governantes europeus. As notícias foram substituídas pelas imagens, e as divergências efetivas foram trocadas por uma imagem e um sentimento publicitário de reconciliação e fraternidade, entre os Estados Unidos e a Europa, apesar de que os desacordos entre americanos e europeus tenham permanecido quase os mesmos, depois da reunião de Bruxelas. Logo depois, uma nova "onda sentimental" tomou conta da imprensa dos dois lados do Atlântico, uma espécie de autocongratulação coletiva pela "redemocratização do Grande Oriente Médio", anunciada pelo presidente norte-americano, numa conferência na Universidade de Defesa de Washington, feita no dia 8 de marco. "O degelo começou e a historia evolui rapidamente [.] as trombetas da liberdade estão soando." (Le Monde, 10 março, p.3).
Alguns dias antes, a secretária de estado americana, Condolezza Rice, afirmou com todas as letras numa cadeia de televisão americana, que "esta era uma vitória do espírito humano, da vontade do homem ser livre", e o jornal The New York Times, que apoiou os democratas nas últimas eleições presidenciais, fez uma homenagem ao presidente Bush, "a quem se deve atribuir - segundo o jornal - uma boa parte do crédito por estes novos acontecimentos". Numa linha ainda mais radical, a revista Newsweek propôs uma revisão da história recente e o reconhecimento da "visão histórica" do presidente Bush. Na mesma hora, o senador Edward Kennedy, que criticou a invasão do Iraque, reconheceu o crédito de Bush, nas mudanças positivas do Oriente Médio. Quase nos mesmos dias, a imprensa européia discutiu exatamente o mesmo assunto, ainda quando tenha mantido uma posição mais analítica e discreta.
Como conseqüência, por todo lado se difundiu instantaneamente a idéia e o sentimento positivo de que o mundo estaria vivendo uma repetição das "revoluções de veludo" da Europa Central, do início da década de 90, só que agora, no Afeganistão, na Ucrânia, no Líbano, na Palestina, no Egito, no Iraque e na Arábia Saudita. Por todos os lados, estaria em curso um movimento massivo e espontâneo, quase telúrico, de sublevação das massas populares - em busca da liberdade - desencadeado a partir do Iraque, o que acabaria justificando ex-post as guerras desencadeadas na região, pelo presidente Bush - verdadeira origem - ainda que trágica - desta verdadeira "primavera árabe".
No momento, a opinião pública internacional parece perplexa frente ao que está acontecendo, e por isso, mais do que nunca, é preciso manter a objetividade. E nesse caso, a primeira coisa importante que se deve entender é que, de fato, o Oriente Médio e a Ásia Central foram abalados profundamente pelas guerras do Afeganistão e do Iraque. Alias, não poderia ter acontecido outra coisa, depois de duas guerras arrasadoras, numa mesma região e num lapso de apenas dois anos. No mínimo, ficou claro em toda a região do "Grande Oriente Médio" que os Estados Unidos vieram para ficar, e que ninguém desafia hoje o poder americano impunemente, exatamente como ocorreu, na mesma região, com o poder imperial britânico, nos tempos da Rainha Vitória.
Portanto, não há como se enganar, porque a presença militar americana na região, a partir de agora, terá um papel decisivo nos desdobramentos da política interna dos países