A construção do ódio
Mesmo a um dos maiores teóricos do Estado, que foi Hans Kelsen, pareceu estranha a afirmação de Aristóteles de que a amizade é valor mais importante do que a justiça. Em seu ensaio "Metamorphoses of the Idea of Justice", publicado em inglês, em 1949, Kelsen revela stupefaction diante da passagem 1155-a, da "Ética a Nicômaco". (Leia Mais)
Sexta, 01 de Agosto de 2003 às 10:35, por: CdB
''Parece, portanto'' - diz Aristóteles em toda a passagem, não citada integralmente por Kelsen - ''que seja a amizade a manter unida a polis (ou seja, o Estado) e os legisladores se preocupam mais com a amizade do que com a justiça: de fato, a concórdia (ou a paz) parece ser qualquer coisa semelhante à amizade, e é a concórdia que os legisladores buscam obter, quando procuram eliminar a discórdia, uma espécie de inimizade. Entre amigos - prossegue o grego - não há necessidade de justiça, enquanto, mesmo entre os justos, a amizade é ainda necessária. Considera-se, assim, que o mais alto nível da justiça consista na realização da amizade.''
Os estudiosos de Aristóteles têm discutido amplamente a relação entre a política e a amizade, e seu espaço comum, o da ética. Ética, política e amizade são valores que dão fundamento à cidade, ou seja, ao Estado, mas a experiência histórica demonstra que nenhuma sociedade humana, a não ser na ficção e na esperança dos utópicos, conseguiu exercê-los de forma completa. É à sua busca continuada, no entanto, que devemos a sobrevivência das comunidades humanas. Uma idéia resume esses três valores: a idéia da solidariedade. Ao faltar o essencial da solidariedade, que é também justiça, as sociedades se destroem, na traição nacional, que se expressa hoje na aceitação e adesão ao imperialismo neoliberal, na guerra, enfim, no genocídio.
Há ocasiões históricas em que a consciência da solidariedade se impõe para conservar as comunidades humanas, preservando-as de dolorosos confrontos. E há momentos em que essa consciência é vencida pelo ódio. Há quem atribua à ignorância o desatar da ira, mas a História revela que a excelência do pensamento lógico costuma conduzir aos maiores disparates: ''Molta sagessa, molte volte, vuole dire molta follia'', anotou uma vez Galileu.
A loucura - um dos antônimos da amizade - tomou conta do mundo inteiro, como demonstra a loteria que quase foi criada pelo Pentágono a fim de premiar quem preveja os atos de terrorismo. Assim como é dever de cada homem procurar manter o próprio bom senso, é dever dos legisladores, de acordo com Aristóteles, preservar a lucidez, ou seja, a concórdia, nas comunidades e eliminar o ódio.
Estamos em um desses momentos em que o ódio está vencendo a solidariedade. No plano mundial, os Estados Unidos passam por uma de suas crises cíclicas de identidade moral. Como em outras fases do passado (com Polk, contra o México, com McKinley e Theodore Roosevelt contra a Espanha, com Johnson, contra o Vietnã), o governo se vale da mentira para construir, a serviço de sua ambição expansionista, e com a cumplicidade dos barões da mídia, o ódio nacional contra outros povos. Hoje já não existe dúvida de que, como das outras vezes, a informação foi manipulada para justificar a guerra contra o Iraque. O ódio e a loucura se manifestam na absurda aliança atual entre judeus fanáticos e neonazistas, em projetado genocídio dos muçulmanos.
No plano interno, estamos também diante de perigosa manipulação das informações. Não nos faria mal lembrar 1964. A tática da direita, sempre repetida, é a de exagerar a capacidade revolucionária das esquerdas (o singular e o plural não estão aqui por acaso). Em 1937, o tenebroso e sangrento Plano Cohen, atribuído aos comunistas pelo seu redator, o integralista Mourão Filho, serviu para intoxicar a opinião pública e justificar o Estado Novo, embora se tratasse de grosseira falsificação. Em 1964, as Ligas Camponesas de Francisco Julião eram comparadas aos exércitos maoístas, prontas para, em uma ''Grande Marcha'' sobre o território nacional, levar o saqueio e o caos, e não passavam de movimentos frágeis, articulados em torno de uma esperança.
Registre-se que as esquerdas também costumam militar na insanidade, quando exageram as próprias forças, com o objetivo de obter resultados políticos. Os autênticos movimentos de esquerda, no entanto, procuram,