Rio de Janeiro, 05 de Novembro de 2026

A complexidade da vida social e a pressa dos discursos voluntaristas

Sexta, 16 de Setembro de 2011 às 09:16, por: CdB

Qual a diferença entre sistemas mecânicosde alta complexidade e sistemas sociais complexos? Esta pergunta pode causarestranheza nos leitores acostumados com artigos aqui na Adital. Afinal, o quetem a ver isso com os problemas humanos e sociais? À primeira vista uma coisanão tem nada a ver com a outra, mas espero que ao final do artigo faça sentido.

Sistemas mecânicos, por mais complexos quesejam, quando bem desenhado e executado, obedecem ao comando que coloca osistema em movimento. Isto é, as partes que compõem o sistema, por maisrelações que possam ter com outras partes, não tem capacidade de se rebelarcontra a ordem ou de desejar e executar algum movimento ou ação que vá emdireção diferente. É claro que, quando as peças estão gastas ou ocorre algumproblema de manutenção, o sistema pode não funcionar corretamente. Mas issoainda continua sob o controle do agente externo que pode corrigir e, em últimocaso, reconstruir o sistema.

Em sistemas assim, o agente externo que oscontrola tem um grande domínio sobre o sistema. Podemos dizer que a suacapacidade e vontade determinam em grande parte o funcionamento do sistema –não totalmente porque sempre há espaço para o acaso e também porque pode havera falta de condições tecnológicas adequadas para a perfeita execução doplanejado.

Na Idade Média e também nos temposmodernos, a sociedade humana foi entendida a partir desta imagem de sistema. NaIdade Média, pensava-se que o agente controlador externo era Deus Onipotente.Por isso, o modo como a sociedade estava organizada e funcionava e o queacontecia na sociedade eram vistos como uma expressão da vontade de Deus.Assim, por ex., os sofrimentos humanos eram vistos como justiça, castigo, deDeus; e a autoridade deveria ser obedecia incondicionalmente.

Com a modernidade, essa idéia de Deuscontrolador da história entra em crise e surge a idéia de se construir umasociedade humana baseada na "liberdade, fraternidade e igualdade”. OCapitalismo/Liberalismo vai dar mais ênfase na liberdade e riqueza, enquantoque o Socialismo/Marxismo vai privilegiar a noção de igualdade. Mas, nos doiscasos, há a idéia comum de que um bom plano racional e "sujeitos históricos”capazes poderiam construir essa nova sociedade. O sujeito teria um poder demodificar ou de impor sobre o objeto, o sistema social, a sua vontade.

Essa ideia de fundo ainda permanece emmuitos grupos que lutam por uma sociedade alternativa ao capitalismo atual,sejam grupos sob a influência do marxismo, do pensamento ecológico ou docristianismo de libertação. Isso aparece mais claramente quando se pensa que umbom "plano” racionalmente concebido e uma vontade política forte seriamsuficientes para mudar o mundo.

O problema é que em sistemas sociais, quesão complexos, não há agente ou sujeito externo ao objeto, o sistema social,capaz de impor a sua vontade sobre o objeto. Porque, em sistema socialcomplexo, as partes que o compõem têm vontades próprias e interessesconflitantes. Isto é, elas não agem de acordo com o previsto ou planejado. Alémdisso, não há um agente externo ao sistema (Deus ou sujeito histórico) capaz deimpor sobre o sistema a sua vontade. Todos fazem parte do sistema social e asações de cada grupo geram reações de outros, que por sua vez vão gerar maisreações... O voluntarismo não dá conta da realidade.

Quando estamos no papel de simplesmente fazercríticas radicais contra o sistema ou contra quem está dentro do sistematentando modificá-la, podemos nos contentar com críticas abstratas que nãolevam em consideração essa complexidade de sistemas sociais. Mas, quandoentramos dentro, por ex. no governo em alguma instituição, tentando mudar asociedade dentro do marco democrático e lidando com pessoas e grupos que têminteresses e visões diferentes e até conflitantes, descobrimos na prática quehá uma grande diferença entre sistema mecânico e sistema social complexo.

O aprendizado dessa diferença nos tornamais humilde e menos apressados na crítica às pessoas que estão lidando comrealidade concreta das pessoas e instituições; e também na proposição de "nova”sociedade. Fidelidade à causa dos pobres não pode ser confundida com o voluntarismoe um radicalismo simplista.

[Autor de "Sujeito e sociedades complexas”.Twitter: @jungmosung]

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