A opressão feminina no Brasil colonial é o tema de "Desmundo", segundo filme apresentado na mostra competitiva de longa-metragem em 35mm na 35ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Dirigido por Alain Fresnot, a reconstituição mostra o início da colonização brasileira, em 1570, e a vinda da órfã portuguesa Oribela (Simone Spoladore) para o Brasil. Criada em um convento, ela se depara com uma realidade distante de seu sonho de seguir a vida religiosa. Obrigada a se casar com o senhor de engenho Francisco (Osmar Prado) e a realizar suas funções de esposa, Oribela passa seu tempo planejando uma fuga. Numa época em que o papel feminino era apenas o de servir, Oribela apanha, é acorrentada e violentada por não desempenhar suas obrigações como Francisco queria. "Desmundo" retrata o machismo da época em que as mulheres eram propriedades de seus maridos, assim como os escravos ou os cavalos. O filme reconstitui a colonização brasileira pelos olhos de uma mulher e captura, por meio da sensibilidade feminina, o sofrimento humano. A igreja católica é mostrada como uma instituição hipócrita, que tolera a escravidão dos índios e os usa como escravos em nome de Deus e da catequização. O medo da perseguição aparece na conversão forçada de judeus em "cristãos-novos" e no autoritarismo do padre do povoado. A reconstituição de época impressiona pela fotografia, cenário e figurino. Os objetos cotidianos revelam muito do dia-a-dia do colonialismo no Brasil e foram recriados com precisão. Falado em português arcaico, o filme foi legendado para que o entendimento do público não fosse comprometido. Uma falha foi a falta de sotaque português da personagem de Simone Spoladore. A atuação de Osmar Prado na pele de um senhor de engenho bruto é o destaque do filme. Prado interpreta com sobriedade sua personagem, revelando aos poucos, por meio de seus atos, a personalidade dela. "Foram um mês de preparação, com aulas de equitação, prosódia e ensaio, e três meses de filmagem", conta o ator. Simone Spoladore, como em "Lavoura Arcaica", convence em um papel difícil. Por sua pouca idade, a atriz enfrentou bem o desafio de encarnar Oribela. "Para compor a personagem li muito Clarice Lispector, além do próprio livro da Ana", revela. A adaptação para as telas do romance "Desmundo", da escritora Ana Miranda, foi toda filmada em Ubatuba (SP) e custou R$ 4,5 millhões. "Pelo trabalho de reconstituição, foi um filme de baixo orçamento. Nos padrões internacionais ele custaria até US$ 12 milhões", afirma o diretor. Alain Fresnot é um velho conhecido do Festival de Brasília. Sua primeira participação foi em 1972, na mostra competitiva de curtas-metragens em 16 mm.
A colonização brasileira pelo olhar feminino
Sexta, 22 de Novembro de 2002 às 22:00, por: CdB