Se as contradições internas dos novos processos nacionais conduzidos por forças partidárias progressistas ou de esquerda na América Latina já são significativas, o que dizer da simples delegação da tarefa de capitanear as mudanças aos "agentes da política"?
O Partido dos Trabalhadores do Brasil foi, durante muitos anos, uma espécie de esfinge da esquerda latino-americana e européia. Logo após o seu surgimento, se tornou a maior formação partidária de esquerda do mundo ocidental que conseguiu agregar valores e práticas diferenciais, como a crítica às experiências stalinistas do leste europeu, a defesa da pluralidade e da democracia interna, a preservação da independência de classe dos trabalhadores e a defesa do socialismo como horizonte estratégico.
Após apenas 10 anos de existência, o PT já ocupava funções institucionais importantes em muitas administrações municipais e em assembléias e câmaras legislativas, desenvolvendo experiências inovadoras, dentre as quais a administração popular de Porto Alegre, que inspirou a realização do Fórum Social Mundial no verão de 2001.
A eleição do presidente Lula, além das enormes expectativas geradas dentro e fora do Brasil, no plano imaginário também representou uma espécie de "redenção" do movimento altermundista. Não sem razão de ser, dada a importância geopolítica do país no continente e seu peso no contexto mundial conquanto a principal economia da periferia capitalista.
A crise porque passa o PT - seja em razão do rumo frustrante e conservador do governo Lula, seja em decorrência dos esquemas nebulosos engendrados por setores da antiga direção partidária -, reúne todos os ingredientes que poderiam tonificar teses e posições autonomistas muito debatidas em edições anteriores do Fórum Social Mundial.
Fator de despolitização
Essa posição despolitizadora, defendida por alguns intelectuais e ONGs, acredita ser possível "transformar o mundo sem conquistar o poder", o que equivale a delimitar o protagonismo da sociedade civil ao nível das resistências e da formulação de alternativas transformadoras, deixando para aqueles que atuam na esfera "da política e do Estado" o compromisso de efetuar tais transformações. Ou, dito de outra forma: a questão partidária e estatal é estranha ao "universo da sociedade civil", que se basta em si mesma.
Ainda que esta formulação teórica contenha uma crítica correta quanto aos problemas de democracia interna, de um certo vanguardismo e dirigismo dos partidos de esquerda tradicionais, não se deve desprezar as conseqüências dramáticas que esta posição representa para a efetiva implementação de um projeto transformador e contra-hegemônico.
O caso do Equador é emblemático. Com muitas dificuldades e contradições, a população indígena construiu após anos uma poderosa unidade étnica e assumiu sua condição de força social majoritária na sociedade equatoriana. Liderou a luta contra um governo opressor e avançou na conquista de dispositivos democráticos no sistema institucional do Equador.
No momento da apresentação de uma candidatura presidencial, delegou a representação da classe a um coronel que havia conseguido impedir a violência e a repressão estatal às manifestações populares. Ainda que eleito com uma plataforma transformadora, Lúcio Gutierrez traiu o movimento e a nação implementando um projeto totalmente antagônico ao que assegurou ampla adesão social à sua candidatura. No governo, dentre outras iniciativas nefastas, Gutierrez dolarizou a economia.
A centralidade da política
A conjuntura latino-americana desmente a validade destas concepções autonomistas e diminui sua expressão no debate teórico e intelectual desse VI FSM. O maior número de atividades inscritas no Fórum estão no eixo 1 (Poder, política e lutas pela emancipação social), no qual se pode localizar vários debates de fundo sobre a problemática dos partidos políticos, da disputa do poder