Rio de Janeiro, 19 de Maio de 2026

A casa e a cara

Quinta, 30 de Junho de 2005 às 07:44, por: CdB

Estou entre aqueles que acreditam não haver propriamente uma "conspiração" na imprensa contra o governo Lula. Seria demais para ela. Conspiração era coisa para Assis Chateaubriand, Júlio de Mesquita Filho e Neto, Roberto Marinho, gente que queria pautar ideologicamente a sociedade brasileira.


Neste 28 de junho há um interessante artigo da jornalista Eliana Catanhede na página 2 da Folha de S. Paulo. O título é: "Cadê a mentira?". O tema da jornalista é que a sucessão de depoimentos e contra-depoimentos vão confirmando tudo o que o deputado Roberto Jefferson denunciou. Não importa, diz ela, quais as condições morais do denunciante, nem suas intenções. O que importa é "sua excelência, o fato".

A pergunta é pertinente, e o rumo do artigo também: mesmo que não houvesse outras corroborações, as denúncias, vindas de quem vem, com tal currículo e conhecimento dos bastidores da política, teriam de ser apuradas. Mas a resposta não está longe. Ainda não se pode dizer, nas denúncias do deputado, o que é verdade e o que é mentira. Pode-se especular que, no mínimo, algo deve ser verdade. A construção da mentira, no entanto, é o próprio depoimento, e seus efeitos colaterais.

Iago mostra o lenço de Desdêmona, que Otelo lhe havia dado, nas mãos do suspeito Cássio, e depois nas mãos de Bianca, a quem ele (Cássio) o deu. É o lenço de Desdêmona? É. Cássio o tem nas mãos? Tem. Bianca o recebeu? Recebeu. Desdêmona foi leviana? Foi. As semelhanças superficiais param por aí. Na peça há um artifício: Foi Iago, ele mesmo, que tomou o lenço que Desdêmona levianamente perdeu e o pôs nos aposentos de Cássio. Emília, mulher de Iago, denunciará o artifício mais tarde e por isso será morta pelo marido.

Mas há uma semelhança profunda que não se extingue. Formulada por quem é, pelo homem de fino trato que é Iago, conhecedor dos meandros e das palavras do poder, a denúncia fascina Otelo, tanto quanto o amedronta. Quanto mais ele entra em pânico, mais a denúncia e a "persona" - a máscara - do denunciante o obsedam. Fascinado, Otelo não consegue ver mais nada. Para ele a verdade, toda a verdade, se resume nas palavras e na máscara do denunciante. Ele mata Desdêmona e se suicida no final.

Esta é a mentira que se vai construindo em torno do caldeirão (agora me vêm à mente as bruxas de Macbeth) aberto de denúncias: perde-se a capacidade de olhar para os lados, de analisar, de fazer as clássicas perguntas sobre "para onde estão se mexendo os personagens", "cui prodest", quem lucra, como se dispõem e se redispõem as peças no tabuleiro político, como chegamos a esta situação, vamos sair dela para onde, e outras mais.

Este fascínio do mal, do tumor, da chaga aberta, vai se impondo e é irreversível, a começar pela própria imprensa. Estou entre aqueles que acreditam não haver propriamente uma "conspiração" na imprensa contra o governo. Por quê? Porque uma conspiração seria demais para ela. Conspiração era coisa para Assis Chateaubriand, Júlio de Mesquita Filho e Neto, Roberto Marinho, gente que queria pautar ideologicamente a sociedade brasileira.

A grande imprensa de hoje se apresenta incomparavelmente mais débil ideologicamente. É incomparavelmente mais repetitiva, pois limita-se a comprar pacotes ideológicos prontos para vendê-los publicitariamente, como o patrocinado pelo Consenso de Washington na última década e meia. Depois ela se aperta: nada do que defendeu a partir deste Consenso deu certo em nenhum lugar do mundo, muito pelo contrário.

Falar de conspiração em relação à imprensa de hoje é o equivalente a querer dar a Medalha da Ordem do Corvo (saudoso apelido de Carlos Lacerda) para quem até agora, neste momento, apenas deu ressonância à rataria do porão que faz água. Pode-se dizer, é certo, que há uma campanha renovada contra o governo petista, promovida por jornalistas ou editores de capas e manchetes (Para não haver confusão quero deixar claro que não penso ser e

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