Pouco tempo atrás o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi grosseiro com a memória de um ex-presidente morto (Getúlio Vargas), com o possível destino de um presidente vivo (Luiz Inácio Lula da Silva), e com o candidato a presidente de seu partido (Geraldo Alckmin), tudo num único gesto: aquele de lamentar a ausência entre nós de um Carlos Lacerda.
A menção ao santo padroeiro de todos os golpistas brasileiros provoca alguns paralelos interessantes. Lacerda era um homem de charme incontestável, desbancando corações e olhares por onde passasse. Era um orador brilhante, inteligente, culto, bom escritor. Tivera um passado de esquerda, o que lhe dava mais elegância aos olhos de quem o contemplasse: para os que odiavam a esquerda, isso era um sinal de quanto ele progredira. Para quem tivesse laivos à esquerda, isso o fazia um inimigo temível, pois conhecia de perto as idéias de que falava mal. Lacerda podia ser comparado a esses jogadores de futebol que fora do campo vivem cercados de criancinhas, mas ao entrar nas quatro linhas tornam-se feras indomáveis e assassinas. Lacerda tinha tudo para entrar para a história num nicho brilhante.
Pois bem: onde está este nicho? Onde estão as avenidas Carlos Lacerda em todas as cidades brasileiras? Onde estão as fundações, os monumentos? Há alguns livros, é verdade, mas muito pouco diante da exuberância da vida daquele homem. A história lhe foi cruel: deixou-o praticamente só, abandonou sua memória, o que é mais terrível do que uma condenação em vida. Mas em vida, Lacerda só destruiu. O que ele construiu? Alguma política social relevante? Alguma visão complexa da sociedade brasileira, exceto a que era movida por um alinhamento com os Estados Unidos na Guerra Fria? Nada. Lacerda ajudou a destruir Vargas em vida: a memória deste, contraditória, mas viva, esmaga a de seu inimigo mais acirrado.
O mesmo pode se passar com Fernando Henrique Cardoso, no plano político, em primeiro lugar. Sua obra resistirá, ainda que por ora o político conservador a ofusque completamente, transformando-a num mero prelúdio de uma aventura à direita em que seu patrimônio intelectual se enfraquece. Depois, muito depois, pode ser que ela volte a ficar em primeiro plano, com suas qualidades, contradições e problemas, quando o político de fim de vida entre para o oblivion dos perfis passageiros.
Quando assumiu em seu primeiro mandato, o hoje ex-presidente Fernando Henrique anunciou "o fim da era Vargas". É claro que quem anuncia o fim de uma era anuncia, implicitamente, o começo de outra. Mas se nós olharmos hoje para o debate político contemporâneo, vemos que nessa pendenga Vargas está levando vantagem. Sem perder de vista seu vezo autoritário e os desmandos do Estado Novo, seu legado junto aos trabalhadores e sua concepção de um país dotado de um projeto nacional vêm sendo reavaliados em todos os cantos, sobretudo à esquerda, que tanto o criticou.
Esta luta histórica é um dos estros de inspiração da Carta que nestes dias o ex-presidente jogou na arena política. É claro que a carta disputa espaço também com a "Carta aos brasileiros" de Lula, de 2002. Mas curiosamente, a Carta de Fernando Henrique traça um círculo de giz à sua volta. Embora pública, é uma carta dirigida aos que estão num palco seleto, os pessedebistas e demais pessoas que, sem se envolver com a política, são de boa fé e a acompanham. Levantam-se nela todas as acusações que se lançaram, sem resultado eleitoral palpável até agora, contra o presidente Lula, sem provas. O mea-culpa nela expresso, de que o PSDB errou sobretudo em não admitir seus erros, em não livrar-se do peso das acusações contra o senador Azeredo, vale como uma introdução ao lamento implícito: o PSDB não reuniu forças, não soube reuni-las no momento adequado, para derrubar o presidente Lula, ou pelo menos para inutilizá-lo. Neste sentido, a carta corrobora as declarações anteriores. Faltou um Carlos Lacerda no PSDB, um golpista experiente, profissional, do
A Carta Testamento de Fernando Henrique
Sexta, 15 de Setembro de 2006 às 08:57, por: CdB