Rio de Janeiro, 11 de Setembro de 2026

A capital do mundo

Terça, 16 de Março de 2004 às 09:10, por: CdB

Hemingway deu a um de seus contos sobre os toureiros de Madri o título de "A capital do mundo". Madri foi, neste domingo, horas depois da tragédia, a capital do mundo. A vitória dos socialistas é muito mais importante do que podem supor alguns analistas. A maioria dos espanhóis, que parecia disposta a manter os conservadores no poder, mudou de idéia nas horas travosas do luto. Os eleitores sentiram, com a tragédia, que o governo de Aznar, em sua adesão irresponsável à guerra contra o Iraque, arrastara o país a um conflito que não lhe interessa. A vitória socialista na Espanha altera a situação mundial.

Em primeiro lugar, reforça a posição de Kerry nas eleições norte-americanas. É improvável que Bush saia honradamente do labirinto iraquiano antes do pleito. Embora ninguém possa garantir que os democratas possam agir de forma sensata no futuro, a derrota dos republicanos em novembro constituirá uma mudança de rumos em Washington. Se essa alteração será maior ou menor irá depender dos fatos a vir. Como alertam os pensadores mais prudentes, os fatos de hoje nos fazem prever o que pode ocorrer amanhã; não necessariamente o que irá ocorrer.

Na Europa, é possível prever, como resultado da tragédia de quinta-feira e das eleições de domingo, um efeito dominó: nos países que mais se alinharam a Washington, como é o caso de Portugal e da Itália, a oposição parlamentar crescerá, e não está fora de cogitação o surgimento de crises que provoquem o enfraquecimento de Durão Barroso e Berlusconi, e venham a exigir a convocação de eleições antecipadas. Em Londres, a situação de Blair não é melhor. Além do medo que deve dominar a população, diante do que ocorreu em Madri, é provável que a ala histórica do Partido Trabalhista se mova, no sentido de desalojar o primeiro-ministro de Downing Street.

Zapatero chega ao governo ouvindo os espanhóis e seu apelo para que não lhes falhe. Ele havia prometido, em sua campanha, desembarcar da aventura norte-americana e promover uma volta de 180 graus na política externa espanhola. Isso poderá significar, também, uma postura diferente do Palácio de la Moncloa com relação às grandes multinacionais espanholas que, associadas aos norte-americanos, desembarcaram na América Latina e, principalmente, no Brasil. Aznar era, no governo, um delegado orgulhoso desses interesses e se recorda a arrogância com que se dirigia ao governo de Duhalde, a fim de lhe dar instruções de como atender ao FMI e aos bancos internacionais. Não é de se esperar que essa mesma postura se dê em um governo socialista. Enfim, e de certa forma, Madri passa a ser a capital do mundo.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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