Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 2026

A busca da "agenda perdida"

Por Paulo Nogueira Batista Jr - Os economistas e financistas que se apossaram da Fazenda e do Banco Central podem ter lá as suas diferenças táticas ou de ênfase, mas estão unidos nas questões essenciais, em especial na convicção de que o modelo econômico lançado no governo Collor e continuado no período FHC estava fundamentalmente correto. (Leia Mais)

Quarta, 10 de Março de 2004 às 07:37, por: CdB

Corre certo risco o cronista que aborda os assuntos de maneira serena e equilibrada. O leitor gosta de sangue e violência. Eis aí um problema sério. A minha predisposição de atender e alimentar esses instintos homicidas tem me custado não poucos inimigos.
Paciência. Vamos lá outra vez. No artigo da semana passada (Medo de Crescer, Agência Carta Maior, 2 de março de 2004), argumentei que o baixo dinamismo da economia brasileira reflete a hegemonia, nos últimos anos, de uma orientação de política econômica essencialmente hostil ao desenvolvimento do país. O governo Lula nada fez até agora para alterar esse quadro. Pior: decidiu aprofundar, em diversas áreas importantes, o compromisso com o modelo herdado do seu antecessor.

A reforma da Previdência Pública, por exemplo, foi mais dura do que as propostas encampadas pelo governo FHC. A Fazenda e o Banco Central vêm sendo mais radicais em matéria fiscal e monetária do que a equipe de Pedro Malan, o que contribuiu decisivamente para a contração da demanda agregada de consumo e de investimento em 2003. O ex-ministro da Fazenda e seus assessores devem estar incomodados com a concorrência sôfrega e desleal dos cristãos novos do governo Lula.

Para muitos tucanos e assemelhados, a explicação da apostasia petista deve ser buscada na "teoria da credibilidade" (versão de galinheiro, evidentemente). Em poucas palavras, a "teoria" é a seguinte: como o PT e os seus economistas passaram anos a fio dizendo e prometendo barbaridades em matéria de economia (o que não deixa de ter uma dose de verdade, diga-se de passagem), o governo Lula estaria agora obrigado a ser mais realista do que o rei. Os excessos da Fazenda e do Banco Central em 2003 e 2004 seriam uma espécie de pedágio - caríssimo - que o atual governo estaria pagando para construir uma "reputação de seriedade" e "conquistar a confiança" dos mercados financeiros doméstico e internacional.

Essa explicação, mesmo na versão de galinheiro, tem alguma validade. Contudo, ela mascara mais do que revela. A busca incessante da confiança dos mercados é, ela mesma, produto da vulnerabilidade financeira e da dependência externa típicas do modelo econômico herdado do governo FHC e aplicado com fervor renovado pelo governo Lula. Em outras palavras, o modelo possui mecanismos de autopreservação, pois cria dependências que tornam arriscados os "desvios de conduta" na área econômico-financeira. Acontece que as políticas que os mercados financeiros e seus porta-vozes econômicos estigmatizam como "desvios de conduta" são justamente aquelas que poderiam conduzir a uma retomada do desenvolvimento e à geração de empregos...

Mas essa resistência à mudança econômica não é uma barreira intransponível. O observador atento não deixará de perceber que há exageros e simplificações em muitas das análises que atribuem grande peso à busca da credibilidade e da confiança. Vou mais longe: credibilidade é uma das palavras mais prostituídas do vocabulário econômico. O que o mercado (leia-se o capital financeiro) considera "crível", "fundamental", "tecnicamente sólido" é quase tão volátil como os próprios fluxos financeiros. Também aqui prevalecem interesses, ondas, modismos, impressões, slogans. A relação disso tudo com ciência, análise e objetividade é sempre problemática, para dizer o mínimo.

Também existe muito exagero nas avaliações que atribuem um poder avassalador e ares de fatalidade ao que acontece na área econômica. Nem todos os países estão tão dominados pelos preconceitos dos mercados financeiros e pela ortodoxia econômica de galinheiro quanto o Brasil. Basta olhar um pouco à nossa volta.

Fatalidade é outra palavra muito prostituída. O aspecto mais espantoso da política econômica do governo Lula está no seguinte fato, mais ou menos acidental, e que poderia portanto ter sido evitado: o controle da Fazenda e do Banco Central por um grupo razoavelmente homogêneo e coeso de economistas e financistas, dispostos a i

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