Rio de Janeiro, 16 de Março de 2026

A Babel revisitada

Por Bernardo Kucinski - Volto à Babel para dialogar com os leitores. Tenho a convicção de que foi muito profundo o estrago dos últimos desmandos do PT na cultura política brasileira. Mas isso não justifica os desmandos da imprensa, como permitir que denúncias assumam características de linchamento. (Leia Mais)

Quinta, 07 de Dezembro de 2006 às 22:56, por: CdB

Estou de volta à nossa Babel para dialogar com a enxurrada de reações ao artigo "A babel é aqui", não com o objetivo de ter a última palavra, e sim em consideração aos leitores. A enxurrada começou com uma série de intervenções favoráveis, contra apenas uma antagônica. Depois, claramente em resposta, surgiram muitos comentários desfavoráveis, alguns hostis. É quando a leitora Sonia Bulhões exclama: "Nossa! Parece que a direitosa em peso descobriu a Carta Maior..." Numa terceira etapa, nova leva de comentários favoráveis.

É como se a internet tivesse se tornado palco de um duelo entre "Direita" e "Esquerda", para ficar nessa classificação sabidamente rudimentar. Isso significa que, ao contrário da tese do artigo, está havendo diálogo? Não me parece. Está menos para diálogo e mais para um Flá-Flu, como diz o leitor que preferiu se chamar apenas de If. Na minha opinião, ele matou a charada ao dizer que "os torcedores neste Flá-Flu sentem vergonha de refletir e concordar , mesmo que com partes de um texto, se o conjunto do texto dispara algum alarme de oposição ao seu credo político..."

Ou seja, operam por preconceito. Associam o autor a um credo, e se esse credo os desagrada, desclassificam seu raciocínio, independente do mérito. E qual seria esse credo? No meu caso só pode ser o credo PT. Várias das intervenções mais agressivas são motivadas pelo desencanto com o PT. É a advertência de Mozart Guariglia: "Há que analisar a perda de credibilidade de quem defende com unhas e dentes o que aí está..."

Destaco, como exemplar, a intervenção de José Adailton Ribeiro, que diz:

- O PT não é mais um partido de referência, é apenas uma marca famosa fabricando um produto de má qualidade. Com rótulos bem elaborados e chamativos contendo informações duvidosas sobre seu conteúdo.

Ou as de Silvio Néri e Marcos Witczak, para quem o próprio PT "dizia umas coisas e praticou outras". Ou ainda o Bruno, que para quem "a esquerda está pagando pelos erros do PT. É como se vocês da esquerda tivessem perdido toda a credibilidade, não adianta querer expor suas ideais agora como faziam antes".

Concordo com essas afirmações (no seu valor de face e não no seu substrato ideológico). E mais, tenho a convicção de que foi muito profundo o estrago dos últimos desmandos do PT na cultura política brasileira, em especial a hipocrisia de levantar como bandeira principal, e quase única, a ética na política, e o equívoco ainda maior de enterrar em poucos meses todas as posições conquistadas no difícil tabuleiro da hegemonia ideológica, adotando as mesmas práticas que criticava. Também sou muito cético quanto à capacidade do PT de se "refundar".

Ocorre que desmandos do PT não justificam desmandos da imprensa, objeto do meu artigo. Não justificam que a denúncia assuma características de linchamento. Num momento perigoso de linchamento, de caça às bruxas, prefiro me reidentificar com o PT, por assim dizer, do que ser associado, mesmo remotamente, aos linchadores. Se democratizar a informação é parte de uma democratização geral de modos e atitudes, como diz o meu ex-aluno Jurandyr Passos, vamos começar repudiando o linchamento midiático, sem dúvida um fenômeno antidemocrático.

A mídia está fazendo justiça com as próprias mãos, acusando, condenando e executando, tudo num ato só, sem considerar a presunção da inocência e sem individualizar e hierarquizar as culpas. É como na Inquisição, em que bastava um indício para levar o acusado à fogueira. O que se passou na mídia brasileira nos últimos 18 meses é muito mais grave do que uma tentativa de golpe, pois o golpe se esgota no seu próprio resultado. O que se passou e continua se passando é uma tentativa de esmagamento moral do petismo.

Para dar um exemplo no terreno das palavras: a repetida associação do termo "petista" a situações negativas, como em manchetes do tipo "petista envolvido em" ou "petista suspeito de" etc, instituiu um novo significado a e

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