A arte de Salvador Dalí poderá ser coroada na 76ª edição do Oscar com um polêmico prêmio cinematográfico que poderá levar ao palco do Teatro Kodal as lutas internas dos estudos Disney.
O filme chamado "Destino", baseado na poesia de mesmo título de Armando Domínguez e composto por cerca de 230 desenhos do gênio espanhol, é candidato este ano pela sempre esquecida categoria de melhor curtametragem de animação.
Seu trabalho, desconhecido pela grande maioria do público, foi fruto da amizade que Walt Disney e o pintor surrealista mantiveram quando após se conhecerem na casa do produtor Jack Warner.
Na época, Dalí estava descobrindo Hollywood, trabalhando no filme "Quando Fala o Coração", de Alfred Hitchcock, e Disney preparava novas peças do estilo de seu filme "Fantasia", uma combinação de arte e música.
O pintor passou oito meses trabalhando em um filme que Disney descreveu como "a simples história de uma jovem buscando seu verdadeiro amor".
Apesar disso, nada era simples para Dalí e o resultado foi surrealista, incluindo relógios derretidos, personagens cheios de olhos e formigas emanando de uma mão.
Uma obra que nunca chegou a ser vista na tela devido à crise econômica de Disney depois da Segunda Guerra Mundial e ao pouco poder comercial do projeto, segundo a distribuidora RKO.
"Esse foi um projeto que Walt sempre lamentou não ter concluído", reconhece o chefe de animação desses estudos, Andrew Stainton.
Realizado nos estúdios que a companhia tinha em Paris e com a colaboração de numerosos animadores espanhóis, "Destino" converteu-se no que Roy Disney, sobrinho de Walt Disney, considera como sua produção mais pessoal e na qual investiu um milhão e meio de dólares.
Uma história de arte e triunfo a ponto de ser coroada com um Oscar que pode esconder outra mensagem no momento da vitória.
Desde que saiu dos estudos em novembro do ano passado, Roy Disney converteu-se no herói da animação, alguém que com 74 anos foi capaz de se opôr ao espírito empresarial do presidente da firma, Michael Eisner.
Sua defesa da animação tradicional e sua oposição às demissões massivas feitas nos estudos Disney nos últimos anos, incluído o fechamento das instalações em Paris e Tóquio, converteu Roy em um herói entre os membros da Academia interessados nesta arte.
"Ele converteu-se no catalisador da raiva, porque é o único com força e poder para deter Michael", confirma o ex-presidente do sindicato de animadores Tom Sito.
Um catalisador que no próximo dia 29 de fevereiro, durante a entrega dos Oscar, poderá ter em suas mãos o microfone do teatro Kodak e a atenção de toda a indústria de animação.
Em declarações à imprensa, o septuagenário familiar de Disney quis minimizar a importância de seu possível discurso, assegurando que só o utilizaria para elogiar o campo da animação.
No entanto, seu porta-voz aproveitou a ocasião para dizer que "será melhor que a imprensa esteja preparada para tomar notas".
A arte de Dalí, no caminho para conquistar um polêmico Oscar
Domingo, 22 de Fevereiro de 2004 às 04:16, por: CdB