Por Urariano Mota - Um artigo do professor e jornalista Antonio Brasil, no Comunique-se, certa vez chamou a atenção para o livro “Por trás da entrevista”, de Carla Muhlhaus. Do artigo retiro as citações a seguir: .“No livro, Carlos Heitor Cony diz que a entrevista não é uma arte: ‘É uma técnica; não tem nada de arte. Porque ela não deve ser criativa. Ela tem de ser uma técnica, ela tem de ser humilde, a entrevista tem de ser humilde duplamente, não só em relação ao entrevistador mas ao entrevistado. Então ela tem de se submeter a umas regras de perguntas, regras éticas, regras de interesse’....
Segunda, 17 de Novembro de 2014 às 13:00, por: CdB
Colunista trata do tema, como se fazer uma boa entrevista
Um artigo do professor e jornalista Antonio Brasil, no Comunique-se, certa vez chamou a atenção para o livro “Por trás da entrevista”, de Carla Muhlhaus. Do artigo retiro as citações a seguir: .
“No livro, Carlos Heitor Cony diz que a entrevista não é uma arte: ‘É uma técnica; não tem nada de arte. Porque ela não deve ser criativa. Ela tem de ser uma técnica, ela tem de ser humilde, a entrevista tem de ser humilde duplamente, não só em relação ao entrevistador mas ao entrevistado. Então ela tem de se submeter a umas regras de perguntas, regras éticas, regras de interesse’....
Para Joaquim Ferreira do Santos, jornalista e escritor, o bom entrevistador deve ‘ter gosto pela conversa, ser um bom conversador”. No começo de sua carreira, Joaquim diz que percebeu que deveria ter uma ‘técnica de sedução e de aproximação para que ocorra a grande resposta’”.
Sem consulta a qualquer manual, acredito que a minha (des) experiência deve ter alguma valia, para os comentários que agora faço.
O primeiro deles é que se a entrevista fosse uma técnica, seria simples, muito simples. Far-se-iam as perguntas certas, à pessoa certa, na hora certa, e o resultado seria... a entrevista certa. Mas assim como não há uma boa técnica de viver, assim também pessoas quando se encontram, para uma transmissão de experiência, jamais poderão ter uma boa técnica. Podem existir boas técnicas de matar, de esfolar galinhas, como alguns entrevistadores fazem.
O segundo deles é que o bom entrevistador não é bem o que gosta de conversar. Essa é a característica dos chatos. Ainda que apareçam para trocar uma idéia com Niemeyer, com Millôr, o bom entrevistador deve estar a léguas siderais do “bom conversador”. Não é justo nem respeitoso que se procure um criador para uma boa conversa. Se você não é a mulher que ele escolheu, a sua filha, a mãe dele, ou o amigo indispensável, por favor, não o procure para conversar. Ele tem mais o que fazer.
O bom entrevistador é aquele que tem a consciência de que o momento da entrevista é valiosíssimo, é uma experiência vital que nunca mais será repetida. É como, se acreditam no que digo, é como o amor que se faz pela primeira vez. O entrevistador deve, antes de mais nada, gostar de pessoas, e na pessoa escolhida manter sobre ela um total interesse, uma incansável vigilância, um olfato, um tato, um olhar de devassa, onipresente, uma percepção que não se envergonha de descer à cadeira, à parede onde entrevistado descansa a cabeça. Tudo que o entrevistado disser, ou calar, ou respirar, ou negacear, ou tossir, ou espirrar, ou brigar, ou escutar, ainda que de passagem, deve ser guardado.
Depois, na hora de passar para o papel, ou para a tela do micro, o entrevistador deve repassar a entrevista, modificar-lhe o plano, renegar o que fez, ou revelar, ou esconder o que não importa na fala gravada. O entrevistador é um servidor do entrevistado, o entrevistador é secundário, sem qualquer importância. A estrela é o entrevistado, seja ele Chico Buarque ou o gari José da Silva. O entrevistador deve saber que as pessoas falam com pontuação, com pontos, vírgulas, reticências, parágrafos, exclamações, silêncios, e até com o indizível. Sim, até com o indizível.
Assim escrevo porque lembro do que me aconteceu ao entrevistar Canhoto da Paraíba. A minha pauta, o meu desejo, era destacar para os leitores a alegria do violonista ao receber a homenagem do Projeto Pixinguinha em 2004. Mas o que eu trouxe de volta para casa, gravado, foram murmúrios, lapsos, sílabas soltas, palavras truncadas. Canhoto havia sofrido um derrame – e por isso mesmo havia recebido a homenagem. Entre sorrisos em sua cara larga de índio nordestino nada havia de felicidade real. Eu não seria justo nem verdadeiro se transmitisse uma visão contente de um artista na decadência física. Então a entrevista se transformou em uma prece, em uma oração, Oração para Canhoto da Paraíba, que pode ser vista em http://www.samba-choro.com.br/debates/1091407338
Canhoto fala sem palavras.
quer mais um presidente para chamar de seu. Ou melhor, para fazer dele um criado.
Urariano Mota, escritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião.Direto da Redaçãoé um fórum de debates, do qual participam jornalistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.
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