Luiz Alberto Moniz Bandeira é reconhecido hoje como um dos maiores historiadores sul-americanos. É doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP) e é professor emérito de Política Exterior na Universidade de Brasília (UnB). Foi conselheiro do ex-presidente João Goulart e do ex-governador Leonel Brizola, com quem fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Esteve preso nos anos 60 e 70 durante a última ditadura militar. Aposentado desde 1995, trabalhou como diplomata na Alemanha. Escreve e pesquisa na Universidade de Heidelberg.
À luz de seus livros - onde esmiúça as relações de Brasil e Argentina com os Estados Unidos, e a visão "sul-americanista" do Brasil, que historicamente viu o continente como sua "área de influência" e a Amazônia como eixo das hipóteses de conflito das Forças Armadas brasileiras - chega-se a entender as complicações representadas pelo recente conflito da Colômbia com o Equador e a Venezuela.
Moniz Bandeira não se ilude: não vê que o conflito esteja resolvido. Seu livro, De Martí a Fidel - A Revolução Cubana e a América Latina [Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, 687 pp.], mostra otimismo em relação às recentes mudanças na ilha. Para ele, o governo de Raúl Castro iniciará uma rápida abertura econômica com grande aproximação com o Brasil e o Mercosul. Marca também como um dado histórico notável o papel da guerra das Malvinas na mudança das relações entre Brasil e Estados Unidos.
Segue a íntegra da entrevista de Luiz Alberto Moniz Bandeira publicada no jornal argentino Clarín, 16-03-2008. A tradução é do Cepat.
As Forças Armadas brasileiras modificaram há anos suas hipóteses de guerra. Agora estariam centradas na Amazônia...
Até a guerra das Malvinas, as hipóteses de guerra do Estado Maior das Forças Armadas brasileiras eram as guerras internas ou de guerrilha; os conflitos regionais, com um ou outro país da América do Sul (a Argentina entre os principais); as guerras em outro continente, onde o Brasil deveria enviar contingentes, como na República Dominicana em 1965; e, finalmente, a possibilidade de ataque de países comunistas e uma conflagração generalizada. Desde a guerra das Malvinas, a hipótese de guerra com os Estados Unidos se tornou objeto de estudo das Forças Armadas. O então ministro da Aeronáutica do governo do presidente João Figueiredo, o brigadeiro Délio Jardim de Matos, admitiu em 1982 que o conflito no Atlântico Sul introduziu uma nova hipótese de guerra não prevista até aquele momento. Tratava-se de "um conflito que envolveria o Brasil e um país do bloco ocidental, situado no hemisfério norte, muito mais poderoso econômica e militarmente, devendo o Brasil em tal situação contar com seus próprios recursos". Portanto, a defesa da Amazônia é fundamental para as Forças Armadas brasileiras. Qualquer tentativa de invasão e ocupação por uma potência estrangeira constitui um casus belli.
Você acredita que as feridas do recente conflito entre Colômbia, Equador e Venezuela já cicatrizaram? Como o conflito pode afetar a integração da América do Sul?
A crise tem causas diversas e complexas. E apesar do acordo, o problema não foi e não será resolvido porque não é do interesse da Colômbia, e muito menos do presidente Álvaro Uribe, acabar com a guerra civil que dura há mais de 50 anos sob a forma de guerrilhas. Ele e a elite colombiana ganham com os recursos dos Estados Unidos, que, por sua vez, ganham com a venda de material bélico e com a presença e assistência militar na defesa dos oleodutos. A Colômbia é o terceiro maior exportador latino-americano de petróleo para os Estados Unidos, depois da Venezuela e do México, e ocupa o sexto lugar no ranking mundial. Por isso, são vários os interesses que há na situação da Colômbia, e às vezes são contraditórios; envolvem toda a sociedade colombiana e o tráfico de drogas. A economia ilegal na Colômbia é muito maior que a economia legal.
Não poderia ser que a ação colomb