Amarelinha, você deve lembrar, é uma brincadeira de crianças na qual risca-se uma espécie de “tabuleiro” no chão utilizando-se de giz, carvão ou lápis de cera. Na verdade, não é bem um tabuleiro, são “casas”, são quadrados enfileirados no formato de um “T” – um “T” com duas cabeças, digamos assim. Essas “casas” demarcam um breve percurso a ser cumprido, percurso este que o jogador deverá transpor apoiado apenas em uma perna. Joga-se uma pedra ou, mais comumente, uma casca de banana e o infante vai alegremente pulando esses obstáculos até cumprir todo o percurso. Sob o risco, claro, de errar, de cair e até mesmo de escorregar na lisa casca e se esborrachar no chão.
A arte da política já foi considerada por muitos pensadores, e até por grandes políticos, uma metáfora do jogo de xadrez. Neste jogo, ao se mover uma peça, já se deve ter em mente dois ou três lances à frente considerando-se possíveis mexidas nas peças manipuladas pelo adversário. Deve-se estar atento a um elenco de prováveis “jogadas” do contendor num intrincado e instigante “jogo” onde inteligência, lógica e estratégia são os principais ingredientes ou regras.
O problema é que na política dos dias de hoje, os políticos, a exemplo das crianças, tem preferido associar a política ao jogo de amarelinha, em detrimento da alegoria com o xadrez. Infantilismo? Pobreza intelectual? Um misto dessas duas mazelas do espírito?
No meio do caminho tinha uma casca de banana. Tinha uma casca de banana no meio do caminho... Não fosse a gravidade e sujeira da “jogada”, valeria até invocar, não sem uma (in)certa ironia, claro, o clássico poema de Drummond. As pedras se confundem com bananas – “bananas” aqui, registre-se, na pertinaz polissemia ou na ambivalência gramatical que confunde o substantivo e adjetivo.
A casca de banana no atual quadro político é, você já deve estar imaginando, [enorme] nariz de cera à parte, essa história de terceiro mandato que foi plantada pela grande imprensa e que, certamente, já foi abraçada/”comprada” por muitos leitores e por um e outro político mais incauto do Partido dos Trabalhadores. Decerto que, devido à já aludida indigência intelectual dos nossos políticos, a amarelinha tem sido o jogo predileto do momento. Mas, até para se brincar esse singelo jogo, que nos remete às brumas de uma infância longínqua, faz-se necessário um pouco de atenção e equilíbrio. Além do mais, política não é brincadeira – nem motivo para poesia ou figuras de linguagem de gosto suspeito. Ainda mais quando o jogo em pauta [o da política] simboliza/representa uma disputa pelo poder.
Já falei aqui, em textos anteriores, das inúmeras, intrincadas e sub-reptícias estratégias com que as forças reacionárias do establishment, através de sua mídia conservadora e golpista, e de seus sabujos encastelados nesses grandes meios de comunicação, pretendem, há muito, interditar o governo Lula.
Primeiro, nas entrelinhas da sua pauta torta (e, como se sabe, só mesmo o Deus dos cristãos consegue escrever certo em linhas tortas), veio aquela incessante tempestade de denúncias, a chamada “agenda negativa”. O governo manteve-se de pé. Depois, começou-se a antecipar a discussão em torno da eleição de 2010, numa clara intenção de se encerrar/esvaziar o segundo mandato do presidente no nascedouro. Também, como já dito aqui, chegou-se a analisar o quadro eleitoral para 2014! Mas o governo teimosamente seguiu governando. Agora, a nova onda é essa conversa, extemporânea e sem-lugar, do terceiro mandato. “Xeque!” – avisa, com insuspeita altivez, num tom de voz que transpira segurança, o sombrio antagonista do outro lado do tabuleiro. Dependendo da próxima mexida nas pedras – quem conhece e está atento às regras do jogo bem o sabe – é xeque-mate. Ou, como preferem alguns, seguindo pelos caminhos e esparrelas pueris: jogaram uma casca de banana no chão do governo. Se este vacilar, no próximo passo advém o tombo. Ter-se-ia então interditado seus p
A amarelinha, a casca de banana e o xadrez
Por Lula Miranda: A casca de banana no atual quadro político é essa história de terceiro mandato que foi plantada pela grande imprensa e que, certamente, já foi "comprada" por muitos leitores e por um e outro político mais incauto do PT. (Leia Mais)
Domingo, 11 de Novembro de 2007 às 10:54, por: CdB