Por Rui Martins - Hoje, a única coisa que me aproxima da presidente Dilma é a alegria de termos recebido um segundo neto. Leio que Dilma se apressa para ir a Porto Alegre, e eu cheguei de Paris, onde nasceu meu segundo neto.
Por Rui Martins, de Genebra: Esperanças e desesperanças neste começo de ano
Hoje, a única coisa que me aproxima da presidente Dilma, na qual votei em 2010, é a alegria de termos recebido um segundo neto. Leio que Dilma se apressa para ir a Porto Alegre, e eu cheguei de Paris, onde nasceu meu segundo neto.
Embora eu evite misturar minha vida pessoal com meus textos políticos, faço uma exceção com meu neto, por ser indiretamente uma consequência da ditadura militar brasileira.
Minha filha, agora mamãe pela segunda vez, nasceu no meu exílio e seus primeiros dias foram num sótão de uns 12 m², que os franceses chamam de chambre de bonne ou quarto de empregada.
Sempre sofri do chamado síndrome de Pollyana, pelo qual procuro ver, na medida do possível e do impossível, o lado bom das coisas ruins e foi assim que o penoso, difícil e doloroso exílio se transformou, com o passar dos anos, no ponto de partida para novas experiências e acontecimentos que enriqueceram minha vida.
O meu neto com seu sorriso tranquilo, nesse seu primeiro contato com nosso mundo, é uma das riquezas herdadas de épocas tão difíceis, numa reversão impossível de prever, em 1971, de tantas angústias e incertezas em carinho, amor e felicidade que só a vida pode nos brindar nas suas surpresas.
Espero que o segundo neto da presidente lhe traga a mesma sensação de felicidade, tão própria de nós humanos na reprodução da vida, nestes dias tão difíceis para ela de administrar nosso país.
Para nossos netos e todos quantos nasceram nestes dias há a coincidência do início de outro ano, que na nossa singeleza consideramos como nascimento de um Novo Ano, com todas as esperanças por ele trazidas: emprêgo, saúde, escola, alimentação, lazer, amor e as alegrias decorrentes.
Estou chegando de Paris e hoje transcorre (não sei porque se passou a dizer comemora-se para coisas ruins) o primeiro ano do massacre dos cartunistas, desenhistas e humoristas da revista Charlie Hebdo, que tantas vezes li nos anos 70.
Foi o primeiro grande atentado contra a liberdade de rir e de dessacralizar as chamadas coisas sagradas pelas religiões e tabus que se acumularam nestes tantos séculos de superstições.
Quiseram matar nosso direito de rir, ironizar, gozar, provocar satirizar os deuses e todo o mundo, nossa herança maior do Iluminismo, fonte da nossa civilização laica.
Quando Malraux previu que nosso século (espero seja só século e não milênio) seria religioso não teria, sem dúvida, imaginado a virada histórica à beira da qual nos encontramos. E muito menos o risco atual de ser sacrificada a laicidade própria desta nossa civilização ocidental, inspirada na Renascença, Voltaire e os iluministas, para dar lugar a um retorno às crenças de diversos matizes que, durante séculos aprisionaram o desenvolvimento do ser humano em favor de um filosofia da sujeição e do servilismo do homem a seres superiores criados pela imaginação de diversos tipos de cleros, para chegarem ao poder político e contrôle da sociedade.
Foi com tristeza que li, na época do massacre, no depoimento de alguns companheiros de esquerda, comentários justificando a violência dos iluminados assassinos islamitas como consequência da violência das caricaturas e dos desenhos de Wolinski e seus amigos.
Não aceito a justificação da censura religiosa porque a religião, apesar de sua força política e de dominar numerosos países, se baseia em mitos, sonhos e irrealidades, para não dizer mentiras, que na Idade Média os cristãos e agora os islamitas querem nos impor à força.
E, no estilo de Charlie, ofereço com meus braços uma banana a todos esses deuses falsos e inventados, inofensivos quando funcionam como anestésicos, calmantes ou psicotrópicos mas perigosos quando querem nos impor política, moral e regras de existência.
E é claro que, com essa visão crua, crítica e provocadora, de vida, em falando do Brasil, não poderia aceitar essa outra forma de engôdo no qual vive o país. Até quando os companheiros de esquerda vão continuar justificando os desmandos, as mentiras e a corrupção na qual se vive hoje, quando nem Lula, nem Dilma e nem o PT se entendem. Essa opção de política realista aplicada junto aos militantes e ao povo vai ter perniciosas consequências para a esquerda brasileira.
Seria muito melhor, sejam quais forem as consequências, um rompimento das lideranças de esquerda com o governo claudicante, inseguro, sem rumo de Dilma e uma revolta por novos rumos dentro do PT, do que se continuar empurrando com a barriga algo insustentável e que levará o povo, ludibriado, enganado, a estigmatizar e rejeitar todas as lideranças de esquerda nos próximos anos.
Senão, se 2015 foi péssimo, 2016 será ainda pior.
Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e rádios RFI e Deutsche Welle.Editor doDireto da Redação.
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