Rio de Janeiro, 18 de Outubro de 2026

21 tiros na justiça

Sexta, 19 de Agosto de 2011 às 07:50, por: CdB

Difícil acreditar que aquela mulher quase menina, comcabelos longos pretos, lisos e franja pudesse ser uma juíza, responsável pelocumprimento da lei e emissora de sentenças sobre perigosos bandidos. PoisPatrícia Acioli assim o era. Reconhecida pelos pares, temida por seus juízosseveros e sem contemplação, sobretudo com o crime organizado.

A juíza do "martelo de ferro" ou "martelopesado" como era conhecida ignorava o sentimento do medo. Nem recuavadiante do crime. Mais implacável ainda quando os réus em questão erampoliciais. Em sua lógica de juíza, magistrado que tem por função ministrar aJustiça, à semelhança de desembargadores e ministros, Patrícia não titubeava emdesempenhar sua função.

Conhecida como uma "juíza inflexível”, que durante a últimadécada condenou cerca de 60 policiais envolvidos em esquadrões da morte emilícias, Patrícia costumava pedir a pena máxima quando os acusados erampoliciais. Não tolerava o fato de que aqueles que tinham como dever defender avida e as pessoas passassem a atacá-la, agredi-la, exterminá-la, nodescumprimento abusivo da lei.

Era uma servidora pública da justiça e como tal agia. Todasas tentativas de fazê-la "aliviar" sentenças ou tornar mais levespenas aplicadas a membros do crime organizado foram em vão. O martelo seabatia, pesado, manejado pela juíza destemida e incansável no desempenho de seuserviço. Pois não é este o significado da palavra "ministério"?

Essa trajetória implacável foi interrompida por umasaraivada de 21 tiros desfechada com a descarga do ódio e da vingança queexplodia em fúria contra o destemor persistente e firme de Patrícia. A família,os filhos, os amigos ainda não conseguiram sair de seu estupor com a bárbaraexecução. E o estado do Rio de Janeiro treme, assustado com o fato e seusdesdobramentos e significado.

Várias análises foram feitas sobre o brutal assassinato.Entre elas, destaca-se a avaliação da Anistia Internacional, que aponta quem verdadeiramenteperde com o desaparecimento da juíza. "O assassinato de um juiz por homensarmados destaca os profundos problemas da cidade com a corrupção policial e ocrime organizado." E segue: " A morte de um juiz que estavasimplesmente realizando seu dever desferiu um duro golpe sobre o Estado deDireito e o sistema judicial no Brasil”.

Quando a justiça é silenciada a tiros, quem defenderá a leie zelará pela segurança de um povo? Calando a voz de Patrícia Acioli, o crimeorganizado no Rio avança e ganha terreno. E quem perde é a população, cada vezmais acuada e temerosa de até onde podem chegar os agentes do terror que não seconsegue conter. A corrupção avança e o desembaraço dos bandidos também. Nãotendo nada a perder, eles não hesitam diante dos assassinatos sumários, como oda juíza, para amedrontar a população e acuar a polícia e a justiça.

O governo do Estado prometeu medidas enérgicas e rápidaspara prender e punir os responsáveis pelo crime. A família espera uma solução.Assim também o povo. Espera-se sobretudo que não tenha que morrer violentamentemais um magistrado. Ou dois. Ou mais. Sobretudo que isso não aconteça porque aapuração do crime se arrasta, morosa e pouco eficaz.

O otimismo gerado na população carioca e fluminense peloestabelecimento das UPPs e sua aparente eficácia em pacificar morros ecomunidades antes atingidas pela violência recebeu golpe mortal com a execuçãoda juíza. A corrupção da polícia encontra-se exposta e aberta como feridapurulenta nas entranhas da cidade e do estado.

Enquanto isso, a vida privada da juíza é devassada, expostaà indiscrição pública, comentada nas esquinas. Que importa quem era ou não seunamorado? Em que influi no perfil do caso se a juíza namorava ou não umpolicial?

O que importa, o que horroriza, o que amedronta e causaindignação é que matando Patrícia, o crime expôs seu rosto. E ele é feio,medonho. Odeia a justiça e quer silenciá-la por qualquer meio, não importa quãoescuso seja. Ontem foi a juíza Patrícia Acioli. Amanhã poderá ser outro ououtra. Quando os juízes, servidores da lei, encontram-se indefesos e ameaçados,a segurança passa a ser verdade desejada e inexistente no horizonte vital de umpovo.

[Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor”(Ed. Rocco).
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