O carro de Peter Lorenz foi interceptado pelos seqüestradores pouco depois de ele sair de casa. Os terrroristas pertenciam ao Movimento Dois de Junho, que lembrava o dia do assassinato do estudante Benno Ohnesorg por um policial, em 1967, numa manifestação contra o xá da Pérsia. O seqüestrado, jurista de 52 anos, era o principal candidato da CDU às eleições que se realizariam quatro dias mais tarde em Berlim.
Este primeiro seqüestro por motivos políticos marcou um acirramento do confronto entre o Estado e os terroristas. Tendo início nos anos 60, o terrorismo na Alemanha se exauriu na década de 90, tendo seu auge no chamado Outono Alemão de 1977.
Lorenz relembrou da seguinte forma o seqüestro: "Me deram uma ou duas injeções que não me anestesiaram por completo, mas me deixaram fora de combate. Troquei duas vezes de carro, até ser levado ao porão de uma casa. Nos seis dias em que fiquei lá, meus seqüestradores me trataram bem".
Governo alemão cedeu
Os primeiros sinais de vida de Lorenz foram transmitidos 24 horas depois do seqüestro. Uma foto da vítima com um cartaz do movimento terrorista foi divulgada no mundo inteiro. Tratava-se de uma foto enviada à agência alemã de notícias DPA, jnto com uma carta com reivindicações dos terroristas, que não eram ligados à Fração do Exército Vermelho (RAF), embora simpatizassem com ela.
Os seqüestradores exigiam a libertação de seis terroristas em 72 horas. Em Bonn, então sede de governo, o chanceler Helmut Schmidt criou imediatamente uma comissão para negociar com os raptores. O fato de os prisioneiros não terem sido condenados por assassinato facilitou a decisão pela sua soltura. A exigência acabou sendo atendida e a decolagem do avião da Lufthansa foi transmitida ao vivo pela televisão.
Conforme pediam os raptores, os terroristas libertados foram acompanhados pelo ex-prefeito de Berlim, o pastor Heinrich Albertz. Este havia renunciado ao cargo justamente por causa da morte de Ohnesorg em meio às manifestações estudantis do final da década de 60.
Ao retornar à Alemanha, no dia 4 de março, Albertz leu uma mensagem com a seguinte frase: "Um dia tão lindo como hoje". Era o código enviado pelos libertados no Iêmen, avisando aos seqüestradores de Lorenz que tinham chegado bem. Pouco depois, o próprio refém telefonou para sua família, avisando seu paradeiro. Ele havia recebido algumas moedas para telefonar, depois que fora deixado num parque em Berlim. Alguns meses mais tarde, seis seqüestradores foram presos e condenados.
Foi a única vez em que o Estado alemão cedeu ao terror. Dois meses depois, um comando da RAF invadiu a embaixada alemã em Estocolmo e exigiu a libertação de 26 companheiros presos na Alemanha. Seguiu-se uma operação policial que deixou o saldo de dois diplomatas e um terrorista mortos.