Rio de Janeiro, 28 de Outubro de 2026

1968: Debord e o Vaticano em transe

Por Gilson Caroni Filho - Em 2005, com o falecimento de João Paulo II, o Vaticano produziria uma das maiores superproduções do que o autor francês classificaria como "negação visível da vida". "Santo subito!", gritava o coro de 300 mil pessoas ao fim da encenação do calvário. (Leia Mais)

Quinta, 29 de Maio de 2008 às 20:47, por: CdB

Se, como muitos enfatizam, Debord foi o autor que melhor traduziu o inconformismo das barricadas de 1968, seu pensamento, passados 40 anos, não cessa de se atualizar, posto que a sociedade capitalista se reproduz como espetáculo incessante.

Um momento emblemático, ocorrido há exatos três anos, não pode ser esquecido se queremos criticar a sociedade regida pela lei do valor e uma ideologia difusa que, se definindo como pós-moderna, quer negar sentido à história, definindo-a como fragmentos que não se encontram ligados. Algo que se esgota em um presente sem devir, sem possibilidade de ser transcendido pela práxis humana.

Em 2005, com o falecimento de João Paulo II, o Vaticano produziria uma das maiores superproduções do que o autor francês classificaria como " negação visível da vida".

"Santo subito!", gritava o coro de 300 mil pessoas ao fim da encenação do calvário. Estima-se que o clamor tenha sido ouvido por um bilhão de ouvintes e telespectadores nos cinco continentes. Até o corpo do papa João Paulo II sumir na escuridão da basílica, a Praça de São Pedro produziu a primeira teofania midiática da modernidade. Centenas de emissoras transmitiram para 90 países o mais impressionante espetáculo de massa de que se tem notícia. Tão fantástico em plasticidade e emoção que não deve ser rotulado apressadamente de espetáculo. É certo que o foi, mas sua magnitude requer algumas observações.

Karol Wojtyla era, antes de tudo, um atualizador das teses dos vaticanistas mais retrógrados. Em termos políticos e eclesiásticos representou a derrocada das conquistas do aggionarmento produzido por João 23, no Concílio Vaticano II. Seu pontificado de 26 anos foi marcado pelo fechamento ao diálogo com valores da modernidade. Reiterou, com ferocidade mariana, o tradicionalismo católico em questões morais, como sexualidade e uso de preservativos. Se avançou, ao estabelecer pontes com outras confissões religiosas, chegou às raias do reacionarismo quando se confrontou com as contribuições da esquerda no seio da Igreja. A Teologia da Libertação foi massacrada pela hierarquia da instituição.

Dotado de grande capacidade de comunicação, utilizou muito bem a mídia, conspirou e foi um dos protagonistas da queda dos regimes do Leste europeu. Como destaca o teólogo Eduardo Hoornaert, "ao operar com o presidente americano Reagan a desestabilização do comunismo, o papa não teria avaliado os efeitos do freio socialista". De fato, o sumo pontífice subestimou o efeito do capitalismo sem contrapartida, e quando atacou a globalização neoliberal lhe faltaram aliados. Os sócios de antes se encontravam na mira de sua crítica. A firme oposição à guerra de Kosovo e à invasão do Iraque mostraram o desconforto papal com um mundo unipolar que, sem sua colaboração, não teria existido.

No campo dos costumes, sua incapacidade de formular orientações que fossem seguidas pelos fiéis contribuiu para a diminuição do número de católicos. Às vitórias políticas não se sucederam conquistas simbólicas. Não logrou construir um lugar em que se reconhecessem os valores aceitos pela maioria dos que professavam a sua religião. João Paulo II não tinha seguidores fervorosos. Dispunha de um invejável exército de fãs. Era uma celebridade à disposição de um universo sagrado que se reinventa ao longo de 2.000 anos. Definido por Castoriadis como "criação incessante e essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras, formas e imagens a partir das quais somente é possível falar-se de alguma coisa", o imaginário cristão é zelosamente trabalhado pela aliança criada entre Igreja e mídia. Duas épocas, dois aparelhos, uma identidade híbrida.

O espetáculo não atropela temporalidades distintas. A folhetinização do sofrimento de João Paulo II foi veiculada pela imprensa, mas edição e roteiro permaneceram nas mãos dos autores milenares. Para eles, protagonistas de um tempo em que o único poder possível era a corporificação, a presença d

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