Os 146 sem-teto que ocupavam um prédio no Comércio de Salvador saíram dele na última quinta-feira pela manhã, por ordem judicial, mas se sentiam vitoriosos.
- Valeu a pena - disse a doméstica Marilúcia Ramos dos Santos, 24 anos, que segurava a bandeira vermelha do Movimento dos Sem-Teto de Salvador (MSTS) no momento da saída do prédio.
- Nós somos corajosos. Mostramos isso e vamos adiante, lutar por uma casa própria - completou ela.
A união entre eles também aumentou. Muitos não se conheciam, mas nessa versão real e não assistida dos programas de convivência obrigatória da TV, passaram a aprender noções de solidariedade, compartilhamento e respeito.
A cozinha comunitária, os 'quartos' provisórios compartilhados, e mesmo os banheiros sem condições de uso que serviram a todos eles durante a ocupação foram algumas das provações pelas quais passaram por esses dias.
E continuarão a passar. Afinal, agora que não têm mais a segurança precária do edifício pertencente ao empresário Moacyr Costa Pereira Andrade, esses sem-teto passam a ficar em um terreno pertencente ao advogado José Alban, no km-12 da Estrada Velha do Aeroporto (EVA).
Nesse local, considerado o 'quartel-general' do MSTS, já estão cerca de 250 pessoas, desde domingo. Eles já dividiram os lotes, fizeram barracos e pretendem esperar ali a decisão da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) sobre a possibilidade de ganharem uma casa, ou pelo menos que a eles seja facilitado o pagamento.
Antes de seguir para a EVA, no entanto, os sem-teto ficaram cerca de 45 minutos na Praça da Inglaterra, localizada exatamente em frente ao prédio que ocupavam. Lá, colocaram a bandeira em frente à Estátua da Democracia e receberam informações do secretário de Habitação, Fernando Medrado.
O secretário disse que o governo municipal está 'saindo do campo das promessas, para entrar no dos compromissos'. A partir de terça-feira, a Sehab começa a fazer, junto com o MSTS, um cadastro socioeconômico dos integrantes do movimento. O objetivo é identificar as famílias, as condições financeiras e beneficiar apenas os 'realmente necessitados'.
Medrado acredita que os recursos federais e estaduais do Programa de Subsídio Habitacional (PSH) logo estarão disponíveis para construir as duas mil casas já previstas pela Sehab. O secretário esclareceu:
- A invasão de terrenos não é uma coisa que a prefeitura pode permitir e estou aqui, porque vocês cumpriram pacificamente a ordem judicial, e as autoridades devem estar do lado de quem cumpre a lei.
Mas o MSTS não pretende abrir mão da ocupação de prédios e terrenos fora de uso.
- Particulares ou públicos, estando desocupado e livre, nós vamos entrar - reafirmou Pedro Cardoso, um dos coordenadores.
A meta é chamar atenção de todas as formas.
- Não podemos mais esperar sentados uma definição do governo - justificou.
O MSTS considera sem-teto todos aqueles que moram nas ruas, de favor ou de aluguel. Para eles, são cerca de 150 mil pessoas nessa situação em Salvador.
146 Sem-teto desocupam prédio em Salvador
Sexta, 05 de Setembro de 2003 às 01:33, por: CdB