Rio de Janeiro, 23 de Agosto de 2026

'Projetar bebês é impossível', afirmam especialistas

A conferência da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) em Washington teve seu ponto culminante

Segunda, 22 de Fevereiro de 2016 às 08:40, por: CdB

 

Especialistas afirmam que avanço da ciência na área é inevitável, mas que não é possível projetar um ser humano

Por Redação, com DW - de Washington, EUA:

A conferência da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) em Washington teve seu ponto culminante no início desta semana, quando a cientista Jennifer Doudna falou sobre uma "revolução na edição do genoma": a tecnologia CRISPR-Cas9. Junto a Emmanuelle Charpentier, do Instituto Max Planck de Biologia Infecciosa, em Berlim, Doudna, da Universidade da Califórnia, desenvolveu a tecnologia capaz de manipular genes de forma fácil e altamente específica em muitas espécies, inclusive em seres humanos. Muitas pessoas temem que o método possa ser utilizado indevidamente para criar os chamados "bebês projetados". Na China, cientistas já aplicaram a tecnologia para alterar o DNA de embriões humanos jovens no ano passado. No entanto, esses embriões não eram viáveis e também não lhes foi dada a chance de se desenvolver. Foi somente um mero experimento numa placa de Petri, sem aplicações clínicas. Mas a possibilidade de que tais aplicações aconteçam futuramente impressiona os cientistas, inclusive Doudna, professora de Biologia Molecular e Celular. O foco dos pesquisadores se volta para as coisas surpreendentes que podem ser feitas por meio da tecnologia.
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Na China, cientistas já aplicaram a tecnologia para alterar o DNA de embriões humanos jovens no ano passado

Cura de doenças

Doudna relatou imenso interesse pelo seu trabalho, afirmando receber inúmeros emails "diariamente". Muitos dizem sofrer de uma doença hereditária e lhe escrevem pedindo para que sejam curados. – Eu lhes respondo, explicando-lhes que a tecnologia não estará disponível clinicamente por muito tempo – afirmou a cientista da Universidade da Califórnia. Mas, isso não quer dizer que esse não será o caso futuramente. – O impensável se tornou concebível – ressaltou no encontro da AAAS a filósofa e bioeticista francesa Françoise Baylis, da Universidade Dalhousie em Halifax, no Canadá. Se os cientistas puderem manipular o gene que sofre mutação em pessoas com o mal de Huntington, por exemplo, então, eles poderão curar a doença e evitar que crianças nasçam com esse tipo de enfermidade. No entanto, isso é verdade somente para doenças causadas por um "erro" único no genoma humano, como anemia falciforme ou distrofia muscular. Males como a esquizofrenia, por outro lado, são muito mais complicados de curar ou evitar. Com a tecnologia CRISPR-Cas9, os cientistas esperam também poder manipular células do sistema imunológico para evitar o câncer e, assim, finalmente encontrar uma cura para a doença.

Longo caminho

Ainda falta muito para a aplicação terapêutica do sistema de edição de genes. E o trabalho em embriões humanos na China mostrou que essa tecnologia também altera o DNA em outras partes que não as desejadas – o que cientistas chamam de "clivagem fora de alvo". Há também uma questão prática a ser resolvida: no momento, cientistas não sabem como transportar as tesouras moleculares de edição de genes para as células e tecidos cujos genes devem ser manipulados. – Se eu soubesse a resposta para isso, provavelmente eu poderia me aposentar – riu Doudna. Originalmente, a pesquisadora desenvolveu a tecnologia CRISPR-Cas9 para investigar a imunidade em bactérias. Mas logo ficou claro que o método poderia se tornar mais do que uma ferramenta de laboratório. Em particular, "quando foi publicado um trabalho mostrando que a tecnologia possibilita a manipulação de genes em macacos." Cientistas estão cientes de que a capacidade de edição de genes humanos pode ter sérias consequências. "Isso poderia pressionar pessoas a mudarem sua sequência genética quando tiverem uma doença", o que poderia levar à discriminação, disse Baylis.

"Odeio o termo bebê projetado"

Os perigos de utilização incorreta da tecnologia são menos prováveis do que a maioria das pessoas pensa. "Não sabemos como aumentar a inteligência", exemplificou Robin Lovell-Badgne, do Instituto Francis Crick de Londres. Como tantas outras características de um ser humano, a inteligência não é resultado de um único gene. Mas muitos deles estão envolvidos e, atualmente, cientistas não sabem quais são. Mesmo que quisessem, pesquisadores não saberiam como aumentar a inteligência num embrião humano. "Bebês projetados não são possíveis", afirmou Lovell-Badgne, acrescentando que detesta essa expressão. "No final, sempre acabamos com a imagem de um bebê louro e com olhos azuis – eu me pergunto por quê."

Avanço inevitável

Em Washington, Doudna falou sobre antecedentes científicos e questões fundamentais que ainda precisam ser respondidas. Somente os 5 minutos finais de sua palestra foram dedicados a implicações éticas. Para ela, como cientista, existe somente um caminho a seguir: "Temos que realizar mais pesquisa básica." – Intervenções genéticas são inevitáveis", disse Baylis. "Por três razões: a busca humana por conhecimento, o nosso desejo de nos superar, e porque pensamos que todos têm o direito de se reproduzir – afirmou a especialista em Bioética. No encontro na capital norte-americana, uma coisa ficou clara: que a ciência envolvida na manipulação de genes humanos irá avançar, não importa quão grandes sejam os temores em relação a essa tecnologia e suas implicações.
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