Em seu dia a dia na aldeia, a indígena Vanessa Smibidi Xerente usa suas mãos para trabalhos delicados de artesanato, fazendo tiaras para vender. Na noite de sexta-feira suas mãos chamaram a atenção espalmando uma bola de futebol. Sem luvas, a goleira chegou até a final do futebol feminino dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas salvando seu time.
Por Redação, com ABr - de Palmas:
Em seu dia a dia na aldeia, a indígena Vanessa Smibidi Xerente usa suas mãos para trabalhos delicados de artesanato, fazendo tiaras para vender. Na noite de sexta-feira suas mãos chamaram a atenção espalmando uma bola de futebol. Sem luvas, a goleira chegou até a final do futebol feminino dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas salvando seu time.
– Eu não tenho luvas para usar. Se tivesse, usaria – disse Vanessa, com um sorriso tímido, quase envergonhado após a partida. Talvez sua expressão fosse outra, mas a derrota nos pênaltis para o Canadá por 3 a 1 impediu um sorriso mais largo.
“Estou feliz porque a cidade inteira está torcendo por nós. O jogo é difícil, mas é assim mesmo. Chegamos até o segundo lugar ”, disse a goleira
A artesã passou pelas dificuldades com a falta de equipamento adequado e fez com que cerca de 10 mil pessoas no Estádio Nilton Santos, em Palmas vibrarem com pelo menos duas defesas difíceis, cara a cara com as canadenses. O empate de 0 x 0, no tempo normal, só foi possível pela atuação da artesã pouco acostumada com tantos olhares.
– Estou feliz porque a cidade inteira está torcendo por nós. O jogo é difícil, mas é assim mesmo. Chegamos até o segundo lugar – disse a goleira.
Vanessa e as xerentes foram valentes até o fim. Enfrentando um time superior tecnicamente, com jogadoras que disputam uma liga de futebol indígena em nível profissional que afastavam como podiam a bola da defesa. O que não faltou durante o jogo foram chutões para a lateral, para cima ou para frente. As xerentes não tinham organização ofensiva para chegar ao gol, mas, ainda assim, assustaram a goleira canadense Rachel Leborgne duas vezes com chutes para da área.
As norte-americanas não conseguiam dominar o jogo. Jasmine Hunt era a jogadora que mais oferecia perigo ao gol de Vanessa, com boas infiltrações e chutes de longe, mas não teve jeito. Não era noite de gols para nenhum dos times.
Os gols que faltaram na final sobraram nas fases anteriores. As donas da casa, a etnia Xerente é do Tocantins – chegaram à final com quatro goleadas, sendo uma delas por 8 a 0 contra as Terena, na primeira fase da competição. As canadenses também sobraram no torneio, com goleadas de 14 a 0 e 13 a 0, mas não estavam com a pontaria em dia. Além de esbarrarem em Vanessa, erraram uma finalização na cara do gol e todas as cobranças de falta subiam além do travessão.
As cobranças de pênalti, porém, revelaram a grande diferença técnica entre as duas equipes, até então escondida. As cobranças precisas das canadenses deixavam Vanessa sem saber se corria ou se atirava na bola. A falta de intimidade com o ofício passou a ser nítida. A torcida vibrou até o fim, mas a vitória escapou entre os dedos.
– Eu esperava um enorme desafio porque a vida do Brasil é o futebol. Mas acho que nós merecemos, assim como elas. Nós duas somos medalha de ouro – disse a canadense Justine Laughren após a partida, no melhor espírito “o importante não é ganhar, e sim celebrar”, lema dos jogos em Palmas.
Várias meninas Xerente não contiveram as lágrimas após a partida. Do outro lado, as adversárias também choraram, aliviadas, e comemoraram muito a vitória suada e conquistada apenas no capítulo derradeiro da partida.
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