Xingu: mais um rio que o homem invade
8/2/2012 15:03, Por Adital
Maisum grande rio da maior bacia hidrográfica do planeta está sendo barrado pelohomem. No início do mês passado, uma barragem de terra começou a avançar sobreo leito do rio Xingu, no Pará, dentre os maiores do mundo. A represa vaidesviar o fluxo da água para permitir que os construtores da barragem deconcreto trabalhem em seco.
Emmais dois anos eles pretendem erguer ali a maior de todas as hidrelétricas jácriadas pelo homem, com capacidade nominal de gerar mais de 11 mil megawatts. Ausina de Belo Monte acrescentaria então mais 15% de energia ao sistemanacional, o maior de origem hidráulica dentre todos os países. A água aindapropicia a energia mais barata de que se dispõe na Terra. E, embora sobcrescente ceticismo, também a mais limpa.
Contracríticos e opositores, o governo federal já decidiu: extrairá da Amazônia todaenergia que seus rios poderão fornecer. Tanto para transferi-la – por longasdistâncias – para as áreas de maior demanda como para atrair novosempreendimentos eletrointensivos de todas as partes. É uma investida tãograndiosa quanto a que se empreende na região do Cáucaso, na antiga UniãoSoviética (mas tangenciando a Rússia, a mais poderosa das repúblicassocialistas da URSS), com outro energético: o petróleo.
Ainterferência humana nos caudalosos rios amazônicos começou no final dos anos1960, durante o “milagre econômico” promovido pelo regime militar. Mas o alvoeram dois pequenos rios, o Curuá-Una, no Pará, e o Araguari, no Amapá. Nelessurgiram duas diminutas usinas, que funcionam com água corrente, sem formarreservatórios para acumulá-la. São a fio d’água, conforme a expressão dosengenheiros.
Aprimeira grande intervenção humana começou em 1975, sobre o leito do Tocantins,o 25º maior rio do mundo, com mais de dois mil quilômetros de extensão. Foi umaepopeia, sob todos os sentidos, bons e ruins. O momento mais dramáticoaconteceu em 1980.
AEletronorte construiu uma ensecadeira de terra com capacidade para suportar apressão de 50 milhões de litros de água por segundo. Era o máximo que seimaginava que o rio podia vazar, com base em estimativas científicas. Mas avazão do Tocantins surpreendeu: foi a 68,5 milhões de litros de água porsegundo. Por pouco a ensecadeira não foi arrastada – e com ela, cinco anos detrabalho e centenas de milhões de dólares já gastos.
O rioXingu tem quase a grandeza do seu vizinho Tocantins, em extensão e em vazão,embora sofra estiagem mais forte durante o verão, quando sobra um fio d’águaentre pedras e ilhas. Esta é a fase em que ele cresce e extravasa, por causadas chuvas que caem nas suas cabeceiras e dos seus afluentes. É o invernoamazônico, caracterizado pelas enxurradas pesadas.
O níveldo rio está bem acima do normal das cheias de janeiro. É sinal de que asinundações poderão ser mais rigorosas. Algumas providências já estão sendotomadas para evitar maiores prejuízos. Uma das ameaças do rio é à ensecadeira.
Elacomeçou a ser formada numa época adversa, justamente quando começam os “torós”,verdadeiros dilúvios. Mas o consórcio construtor de Belo Monte deve terpreferido enfrentar a natureza a correr o risco de nova paralisação forçada oude restrição às obras.
Parapoder iniciar o desvio do rio, a Norte Energia teve que derrubar uma medidajudicial que a impedia de trabalhar no leito do Xingu. Ela tinha que se limitara operar nas margens, com trabalhos complementares e acessórios. Mal a ordemfoi suspensa, tratou de colocar uma grande frota de tratores em serviço,jogando terra nas águas e abrindo estrada numa ilha situada no meio do rio,montando estruturas.
Ojuiz federal que concedeu a liminar, colocando a construtora fora do Xingu, soba alegação de que as obras iam acabar com a pesca ornamental no local, foi omesmo que voltou atrás, logo em seguida, já convencido de que não há essaatividade. Ou ao menos não ao alcance da hidrelétrica.
Agora,se ele mais uma vez voltar atrás, quando examinar o mérito da ação dosdeclarados pescadores, dificilmente sua decisão poderá ter efeito prático. Oavanço da obra humana sobre o vau de um rio como o Xingu constitui fatoconsumado. Revertê-lo é possível e factível, mas não é a regra. Muito pelocontrário. Os engenheiros que levantam barragens sabem muito bem disso.
Ogoverno também. Polêmicas e incidentes como os que se registram em Belo Montese repetiram no rio Madeira, que é ainda maior. Mas a usina de Santo Antônioestá entrando em operação comercial quatro anos antes do cronograma original.
Jirau,com o retardamento provocado pelo quebra-quebra no canteiro de obras no anopassado, ainda assim segue pelo mesmo caminho. As duas terão quase metade dapotência nominal de Belo Monte, mas irão gerar efetivamente mais durante o anoporque o Madeira tem uma vazão maior e mais regular (é o mais importantetributário do fantástico Amazonas).
Logoserá a vez de outro grande afluente da margem direita do maior e mais volumosorio do mundo. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2) prevê que seishidrelétricas no Tapajós, o último grande rio no oeste do Pará, fornecerãotanta energia quanto Tucuruí, hoje a maior usina inteiramente nacional, queresponde por 8% do crescente consumo brasileiro de energia. Aí então virá oAraguaia – e qual mais em seguida?
Duascoisas surpreendem nessa corrida desabalada a grandes fontes de energia: obarulho que provocam quando são anunciadas e o silêncio no qual seguem quando,consumados os fatos, Inês é morta e a obra vai em frente, sem lenço, semdocumento e sem uma fita amarela.
Paraconsolidar a Amazônia como a maior província energética da terra, o equivalenteverde dos campos de petróleo do Oriente. O verde da floresta, porém,transformado em hulha branca – e em seus vários derivados multicoloridos.Quando não, negros.
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