Egito: Tumulto no areal faz mundo rever seus valores

8/2/2011 12:44,  Por Sergio Nogueira Lopes

A crise que assombra as ditaduras instaladas nos países árabes assume o contorno da tragédia humana que se arrasta desde a dominação do Oriente Médio pelas grandes

O monte de areia sobre o qual vivem milhares de almas ancestrais e suarentas anda agitado nos últimos dias

naçõeseuropéias. Faz tempo isso. Hoje, o levante que mostra ao mundo cenas próprias da Idade Média, com camelos e cavalos avançando sobre multidões enfurecidas, expõe os ingredientes da revolta que tomou conta daquele areal sustentado pelas regiões industrializadas e dependentes do Canal do Suez para transportar o petróleo, sem o qual suas máquinas e o modelo social, o welfare, não sobrevivem. Milhares de turistas também deixam fortunas por lá, ao visitar as Pirâmides que, impassíveis, assistem há séculos ao degredo dos valores como a dignidade humana e a justiça, há muito cozidas sob o sol do Saara.

O monte de areia sobre o qual vivem milhares de almas ancestrais e suarentas anda agitado nos últimos dias. Escaldados pela miséria que mantém mais de 50% dos egípcios, tunisianos, líbios, sauditas, iemenitas, somalis e eritreus, entre outros, ajoelhados diante da exploração do homem pelo homem, os árabes encontraram na democracia um sonho para a saída dos mesmos problemas que seus antepassados levaram para o túmulo. Dias após o tirano da vez, na Tunísia, partir para a Arábia Saudita com bilhões de dólares roubados em jóias e barras de ouro, eclode a revolta que tenta apear do poder Hosni Mubarak, hoje a mais notória múmia desde os tempos do Egito Antigo (em breve por certo também ocupará seu lugar no Museu de História Natural de Londres ou no MoMa de Nova York).
Desta vez, nem os Estados Unidos, que sustentaram a camarilha imposta desde a década de 70 como anteparo dos mais altos interesses imperialistas na região, conseguem se manter fiéis ao títere. Mubarak, a exemplo da rainha Cleópatra com os romanos, tenta levar ao extremo a aliança com o Ocidente, apesar da revolta que lhe bate à porta.
Caso o governo de Barack Obama avalizasse a violência contra as massas a exigir o fim da ditadura que ele tanto critica no Irã, em Cuba, na China e em tantos outros governos com regimes diferentes do seu país, cairia por terra o discurso da águia norte-americana, que sobrevoa os quadrantes do planeta na luta pelos ideais de liberdade e democracia.      Quebram e arrebentam meio mundo com base nesse discurso. Chafurdam nas guerras em marcha no Iraque e no Afeganistão, com a diatribe de que o poder emana do povo e em seu nome será exercido. A conversa é ótima. A prática, no entanto, deixa tanto a desejar que agora, mesmo diante do clamor que derrama sangue pelas ruas do Cairo, ainda tentam salvar os dedos do bufão aliado, posto que os anéis se perderam ao longo de uma semana de fúria no areal.
Mas, se Washington treme diante da iminente perda do controle sobre o pedágio do Suez, os israelenses não dormem desde que a praça al-Tahrir foi tomada por manifestantes. Principal aliado dos norte-americanos no Oriente Médio, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, encontra-se em uma ‘sinuca de bico’, como bem descreveria o filósofo Rui Chapéu. Vizinho malquisto de palestinos, iranianos, sírios, libaneses e a maioria dos egípcios, aquela faixa arenosa banhada pelo Mediterrâneo e o Mar Vermelho perde o abrigo do potentado que prepara as malas rumo ao destino do ex-colega de Túnis. No momento que ruir a ditadura e o castelo de cartas desgastadas pela fome e a miséria vier abaixo, as fronteiras da Faixa de Gaza, que mantêm sob suposto controle os homens-bomba da Palestina radical, estarão fora da alçada israelense. Prato cheio para insurretos que pregam um novo banho de sangue na região.
Ao mesmo tempo em que norte-americanos e israelenses se vêem agastados diante a queda de um a um dos seus marionetes no poder de nações contendedoras, com o beneplácito das grandes corporações, responsáveis pela riqueza do tal Primeiro Mundo e, ao mesmo tempo, pela crise sem precedentes que o avassala, estes países não têm outra alternativa senão aplaudir a vontade expressa nas ruas. Se não fosse tão clichê, a imagem que melhor representa tamanho paradoxo é a do tiro no pé, embora, de seu túmulo, em Ramallah, o líder palestino Yasser Arafat nunca esteve em paz tão celestial, rindo às gargalhadas.
Sérgio Nogueira Lopes é sociólogo e escritor, autor de Opinião Giratória, entre outros.

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3 Comentários para “Egito: Tumulto no areal faz mundo rever seus valores”

  1. Luiz Armando

    Está caindo a máscara dos americanos !Bem feito !

  2. João Luiz Brum

    Mesmo com sessenta anos de atraso a história cobra coerência das grandes potências, que lotearam o oriente médio, instalando famílias para chefiar os territórios que dividiram ou desmembraram (Yemen, kuwait, barheim, omã, palestina, etc), além de garantirem, com armas, a perpetuação de ferozes ditaduras simpáticas às teses econômicas ocidentais. Agora aguenta.

  3. Rogerio

    …O amor pelo dinheiro (poder) é a raiz de TODOS os males…
    …Aquele que amar o dinheiro (poder) nunca se fartará dele…

    …A humildade vai adiante da honra!
    _ Será que a humanidade ainda se lembra do sentido de “humildade” ?

    Ah! Quem dera que os que detem certo “poder” ainda que por pouco tempo, pudesem exercitar a humildade…

    Bíblia

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