Total de mortos no ataque de Israel vai a 19

3/6/2010 10:28,  Redação, com agências internacionais

Os ativistas foram recebidos como heróis

Os ativistas foram recebidos como
heróis

Cerca de 450 ativistas detidos por Israel na frota de ajuda humanitária a caminho de Gaza – entre eles a cineasta brasileira Iara Lee – chegaram a Istambul, na Turquia, nesta quinta-feira de madrugada, onde foram recebidos como heróis por uma multidão liderada pelo vice-primeiro-ministro turco, Bulent Arinc. Os ativistas viajaram em aviões fretados pelo governo turco. Os corpos de nove dos nove mortos na ação militar israelense também estavam nos voos. Israel identificou quatro das vítimas como sendo turcas, mas ainda não há informações sobre os outros cinco mortos e 10 desaparecidos, cujos corpos teriam sido atirados ao mar pelos soldados israelenses.

Ao chegar, os ativistas deram relatos de que foram tratados com violência pelos soldados israelenses que abordaram as seis embarcações da frota. Um outro avião chegou à Grécia nesta quinta-feira de madrugada levando cerca de 30 ativistas libertados. Na véspera, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, disse que Israel “não teve escolha” a não ser invadir os barcos na segunda-feira. O Conselho de Direitos Humanos da ONU, com sede em Genebra, votou pela abertura de um inquérito internacional independente sobre o incidente.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também pediu que Israel suspenda o bloqueio à Faixa de Gaza imediatamente, afirmando que o cerco é “contra-producente, insustentável e errado”.

‘Pirataria’

Na chegada ao aeroporto, o vice-premiê Arinc fez um inflamado discurso, no qual acusou Israel de “pirataria” e disse que seu governo saúda a organização islâmica turca IHH, que ajudou a planejar o envio de ajuda para Gaza – grupo que Israel acusa de terrorismo. Alguns dos ativistas libertados disseram que tentaram se defender dos soldados israelenses, que estavam fortemente armados.

Em entrevista à agência inglesa de notícias BBC Brasil, a cineasta brasileira Iara Lee disse que “os soldados entraram atirando nas pessoas”.

– A gente esperava tiros de advertência para o alto, nos pés, mas eles atiraram de verdade – relatou.

Segundo ela, a organização contabiliza pelo menos 19 mortos na ação, e ainda haveria alguns ativistas desaparecidos. Também há sete ativistas feridos em estado grave que permanecem internados em hospitais de Tel Aviv.

– Havia crianças de um ano em nosso barco – diz ela, que estava no Mavi Marmara, o principal barco de passageiros que transportava centenas de ativistas e onde ocorreram as mortes.

Os ativistas turcos libertados passarão por um exame médico antes de seguir para suas casas. Iara Lee disse que planeja voltar para os Estados Unidos, onde pretende divulgar o ocorrido, prestar depoimento a eventuais comissões de investigação e mostrar as imagens dos ataques que conseguiu filmar e trazer de Israel. A grande maioria dos ativistas teve que deixar Israel apenas com as roupas do corpo e seus passaportes, mas os cinegrafistas da equipe conseguiram resgatar as imagens gravadas em cartões de memória.

Iara Lee, deportada pelo governo israelense, já se encontra na cidade turca de Istambul, segundo informou o Ministério das Relações Exteriores. O cônsul brasileiro em Istambul, Michael Gepp, esteve com a cineasta assim que ela chegou à Turquia.

A ativista e cineasta brasileira disse que viu “muito sangue” e que começou “a passar mal” quando subiu ao convés do barco em que viajava e que foi palco dos episódios de violência que resultaram na morte de 19 ativistas.

Iara relembra que os atiradores de elite do Exército de Israel entraram no principal navio da frota, o Mavi Marmara, “atirando para matar”. Ela relata que o operador de internet do barco foi morto com um tiro na cabeça.

– Ele estava na sala de operações, perto da ponte, por onde entraram os atiradores de elite. O corpo dele foi encontrado com um tiro na cabeça – disse ela nesta quinta-feira, em Istambul, onde aguarda o embarque, na sexta-feira, para os Estados Unidos, onde vive.

Iara contou que estava embaixo do convés no momento do ataque, mas quando subiu para procurar seu cinegrafista, viu quatro corpos e vários feridos:

– Era muito sangue, eu comecei a passar mal, tive ânsia de vômito e até desisti de procurá-lo.

Ela disse não ter testemunhado as mortes, mas que “outras pessoas que estavam no barco contaram ter visto soldados atirando corpos no mar”.

– Nossa contabilidade é de que 19 pessoas morreram. Ainda há gente desaparecida, não sabemos o que aconteceu com eles. E ainda há feridos muito graves, praticamente morrendo, que não conseguimos retirar do hospital em Tel Aviv – denuncia.

Violência

Para a cineasta, a violência usada pelas tropas na ação foi desproporcional.

– Nos barcos pequenos, eles usaram balas de borracha, gás lacrimogêneo e armas de choque. Mas no nosso barco, eles chegaram usando munição de verdade. Foram atiradores de elite, todos vestidos de preto, armados – conta.

A cineasta contou que a abordagem israelense ocorreu por volta de 04h30 da madrugada, no escuro, e que foi muito rápida.

– Tinha dois barcos da Marinha. Quando a gente piscou apareceram dezenas de barcos de borracha, helicópteros, atiradores de elite descendo no barco. A marca registrada deles é o silêncio, fomos pegos de repente – ela lembra.

Iara acredita que os soldados ficaram assustados com o número de passageiros a bordo – mais de 600 – e que, por isso, ele podem ter optado por uma ação rápida com o objetivo de assumir imediatamente o controle do barco.

– Imaginávamos que eles fossem tentar jogar redes nos nossos motores, deixar a gente à deriva no meio do mar, mas nunca imaginamos isso – emociona-se.

Depois da abordagem, as embarcações da tropa foram levadas para o porto de Ashdod, em Israel, com todos os passageiros algemados.

– Quando mandaram a gente descer do barco, já tinham jogado todo o conteúdo de nossas malas no chão, estava tudo misturado. Eram roupas, laptops, pijama, escova de dentes, tudo junto – lembrou.

Os ativistas voltaram para a Turquia apenas com a roupa do corpo e seus passaportes. Segundo a cineasta, todas as câmeras, telefones celulares e blackberries foram confiscados pelo Exército. Ela diz que perdeu US$ 150 mil em câmeras e lentes.

Mas Iara disse que os ativistas conseguiram salvar registros do ataque que teriam sido escondidos em peças de roupas.

– A gente conseguiu salvar algumas fitas com imagens do ataque, que costuramos nas nossas roupas e não foram encontradas pelas autoridades israelenses – revelou.

Iara Lee saiu do Brasil em 1989 e passou 15 anos nos Estados Unidos, onde é radicada. Nos últimos cinco anos, ela morou em diversos países, entre eles Irã, Tunísia e França, onde filmou documentários. 

Justificativas

Em Israel, na noite passada, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu rejeitou as críticas à ação militar, que chamou de “hipocrisia internacional ‘. Segundo ele, os soldados foram recebidos por uma “multidão cruel” e agiram para se defender. Netanyahu afirmou que é dever de Israel evitar que foguetes e outras armas sejam contrabandeadas para o Hamas, em Gaza, pelo Irã e outros países. A frota, segundo ele, não pretendia levar ajuda humanitária à Gaza, mas sim tentava furar o bloqueio.

– Não era um barco do amor, era um barco do ódio – disse o premiê.

Cerca de 700 ativistas – entre eles 400 turcos – estavam a bordo das embarcações que tentavam furar o bloqueio e transportar dez toneladas de ajuda humanitária. Israel rejeita as alegações de que Gaza – cujas fronteiras estão fechadas desde que o grupo Hamas assumiu o poder em 2007 – esteja passando por uma crise humanitária. A ONU, Europa e outros países criticaram Israel depois da ação militar contra a frota de embarcações em águas internacionais. As críticas mais duras vieram da Turquia, o único aliado israelense entre os países muçulmanos.

A Turquia já havia convocado de volta seu embaixador em Tel Aviv e suspendeu planos de exercícios militares conjuntos. A Turquia também aprovou uma declaração exigindo um pedido formal de desculpas de Israel pela ação, além de compensação para as vítimas. Ancara também quer que os responsáveis sejam levados à Justiça. O governo turco, no entanto, não cortou relações com Israel e deixou claro que quer proteger as ligações vitais de comércio e turismo.

Enquanto isso, um novo navio transportando ajuda humanitária segue para Gaza em uma tentativa de furar o bloqueio. Israel já avisou que o barco de bandeira irlandesa Rachel Corrie não será autorizado a entrar no território.

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