Rompendo o silêncio para construir um novo Semiárido

1/9/2011 1:43,  Por Adital

Evento teve como objetivo construir o plano anual de convivência com oSemiárido de Minas Gerais

Por Myrlene Pereira e Priscila Souza – comunicadoras populares da ASA

Felisburgo – MG

31/08/2011

Quase 100 pessoas de oito microrregiões do Norte e do Vale doJequitinhonha, entre técnicos das entidades parceiras e gestoras e agricultoresatendidos e articuladores da ASA Minas, participaram do VIII Encontro Estadualda ASA Minas, na cidade de Felisburgo, entre os dias 26 e 27 de agosto. Oobjetivo do evento foi debater a atual conjuntura nacional e seu impacto noSemiárido, além de avaliar a caminhada da ASA e levantar elementos paraconstruir o Plano de Ação Anual para Convivência com o Semiárido.

A coordenadora da ASA, Valquíria Smith Lima, trouxe a reflexão de quehistoricamente o povo brasileiro viveu uma ditadura do silêncio, onde aspessoas têm dificuldade de exercer o direito de falar. “O Encontro Estadual daASA vem propiciar o olhar e o falar sobre os trabalhos da Articulação” disseela durante a abertura do mesmo.

Depois de uma discussão em grupos, a plenária avaliou que o consumismo eo materialismo da sociedade atual dificultam a soberania alimentar, aliado aoclima de impunidade e corrupção que se tem sentido nos últimos tempos. Umaalternativa contra esse cenário seria estimular um olhar crítico e mobilizadordas comunidades. Samuel Silva, técnico da Cáritas Regional Minas Gerais,mostrou como o dinheiro público tem sido aplicado massivamente em investimentosprivados, enquanto bens públicos como educação e saúde estão sucateados porfalta de investimento.

P1MC e P1+2 – A plenária também apontou que as ações da ASA têm conseguidomobilizar as comunidades por onde tem passado, apesar da pressão pelocumprimento das metas. Para vislumbrar o atual cenário destas ações, técnicos ebeneficiários apresentaram números e suas experiências com os programas P1MC eP1+2,que demonstram a transformação social e nutricional através daságuas de beber e produzir.

Foram quase 15 mil famílias atendidas pelos programas da ASA Minas atéhoje e foi constatado, a partir da avaliação dos programas que, para além doacesso à água, a ASA tem levado muito mais às famílias, incentivando o acesso àterra, a soberania alimentar e a democracia no Semiárido.

Anair Maria de Brito Ferreira, da comunidade da Baixa do Barreiro, domunicípio de Porteirinha, é uma das beneficiárias do P1+2. Ela nos conta que”antes bebia água da cacimba. O córrego de onde tirava a água agora já secou ese não fosse a ASA já tinha ido embora do campo”.

Foram apresentados também resultados do projeto Cisternas nas Escolas,que traz novas perspectivas de introdução da educação do campo através da águanesses espaços.

O Programa Guarda-Chuva, executado pela ASA Minas em parceria com ogoverno estadual, também foi falado no encontro. Esta ação possibilita o acessoà água de qualidade em municípios que, apesar de terem sua necessidadecomprovada, estão fora do Semiárido legal.

Educação do campo, EPS, sementes crioulas, desertificação e mudançasclimáticas, gênero, agroecologia, comunicação, juventude e acesso à água e àterra, foram alguns dos temas apontados como importantes e diretamente ligadosà efetivação do desenvolvimento sustentável do povo.

Os participantes do VIII Encontro Estadual da ASA Minas saíram deFelisburgo com o compromisso de sanar as dificuldades e propagar os avanços dostrabalhos da ASA, dando continuidade e fortalecendo a convivência com oSemiárido. A resposta poderá ser vista no próximo Encontro Nacional da ASA, queserá realizado em julho de 2012, quando o Semiárido mineiro receberá oSemiárido brasileiro.

Um momento místico de luta

Místicafoi um dos pontos altos do evento

A mística esteve presente do início ao fim deste encontro. A abertura doevento foi marcada pela representação das asas que levam a soberania aos nossospovos. Neste momento, cada um refletiu sobre que pena quer ser nesta asa.Mortos do massacre do Assentamento Terra Prometida e da comunidade quilombolaGurutuba e sua luta pelo direito à terra foram lembrados durante uma mística detirar o fôlego. O teatro foi o ponto alto do encontro. Estudantes beneficiadospelo Cisterna nas Escolas apresentaram o resultado da educação contextualizadaa partir da leitura do Semiárido. Outra questão também em foco foi o difícilacesso à comunicação e o desafio de realizá-la eficazmente, colocado pelascomunicadoras/es.

No dia 28, um dia após o encerramento da programação oficial do evento,houve um momento considerado mágico e bastante esperado por todos: a XV Romariadas Águas e da Terra, que aconteceu na cidade de Almenara e reuniu cerca de 15mil pessoas, entre elas os participantes do VIII Encontro Estadual da ASAMinas. A religião que antes diferenciava e afastava, foi usada para unir ospovos em direçãoà construção de um novo mundo. A ASA, por possuir essemesmo propósito, participou deste evento de luta e mobilização social por ummundo mais fraterno e justo.

Todos marcharam pelas “Lutas Populares a Serviço da Vida no Campo”,entre orações e palavras de ordem, sendo orientados a abrirem os olhos para asociedade em que estamos vivendo que, diferentemente da pregação de JesusCristo, está cada vez mais concentradora e individualista, renegando ao projetocristão de fraternidade. As palavras que mais ecoaram foram: “Se o campo nãoplanta, a cidade não janta!”

Milhares de pessoas dos movimentos populares e da sociedade civilemocionadas cantaram o hino da fraternidade deste ano: “Nossa mãe terra,Senhor, geme de noite e de dia, será de parto essa dor ou simplesmente agonia”,e concluíam “vai depender só de nós”.


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