Quilombolas do Marajó – o duro caminho
30/1/2012 14:14, Por Adital
Dona Estelina, de quase 80 anos falacom dificuldade e dor sobre a piora da situação de sobrevivência no quilombo deBairro Alto, município de Salvaterra. “Hoje a gente passa mais de semana semcomer peixe. Tem muita rede sendo colocada no rio, impedindo o peixe a subir oigarapé. Antigamente tinha fartura de peixe. Também a gente botava roça. Hojenão tem mais terra pra gente roçar e plantar. Antigamente nós tinha muitamelancia, jerimum, maxixe, banana. Hoje as crianças nem mais conhecem isso. Equando a gente ainda tenta plantar um pouco, é provável que os búfalos vão lá eacabam com tudo. As terras pro norte são do americano. Uma terra enorme. Dooutro lado é da juíza. Do lado sul é da Embrapa. Então não tem mais terra pragente plantar”.
DonaEstelina nasceu neste lugar conhecido como Barro Alto, por isso fala com certanostalgia de um passado não muito distante em que a vida era melhor em váriosaspectos principalmente na alimentação. Apesar de recentemente terem chegadoalgumas modernidades, como a luz elétrica, em 2000, água encanada (para amaioria das famílias) em 2010, quando também começaram a chegar os primeirosaparelhos de celular.
Elaainda relata o grande desafio que enfrentam os jovens, que param de estudardepois da quarta série ou tem que frequentar escola em Salvaterra. E isso émuito difícil, pois no período da chuva o ônibus não vem, e já sofreram acidente.O que resta aos jovens fora da escola é fazer carvão, e com isso destruir a matae tirar assai. A atividade da pesca está quase totalmente inviabilizada e arendas famílias fica cada vez mais limitada. Esta é de maneira geral a realidadedas comunidades quilombolas da região. Ao todo, na ilha do Marajó são 14comunidades de remanescentes de quilombolas. Apesar dos direitos garantidos naConstituição, a gente não vê nenhum benefício observa Luzia, uma dos 10 filhos deEstelina. Apesar de já terem sido realizados os estudos sobre o território dosquilombolas, tudo está paralisado.
Visitas anunciadas
Ao chegarmos ao povoado fomosrecebidos por dona Conceição, que com muita animação foi falando das possíveisvisitas dessa noite de lua cheia: Matinta Pereira, lobisomem, os encantados e Iara,além dos botos. Foi contando com convicção para crianças e adultos caminhantes.
Defato a lua cheia foi um show! Com as redes armadas embaixo de árvores ou nasacada de um salão, foi possível curtir toda a fantasia da caminhante lua.Depois de cinco dias de pé na estrada, nada mais confortante do que curtir essabeleza com uma população acolhedora.
Nacomunidade quilombola de Bairro Alto, onde vivem em torno de 120 famílias,estão sendo realizadas mais de uma dezena de oficinas que vão desde alimentosvivos até massagens e medicina natural… Um bonito e alegre entrosamento quecertamente está fazendo bem e animando a todos. Tem muitas crianças, tendo umamédia de 5 a 6 filhos por família. Com elas está se realizando uma lindaprogramação. Também em vieram crianças e adultos de outras comunidades por ondepassamos, como Bacabal e Pau Furado.
Um pouco do contexto da caminhada
Osparticipantes são de grande heterogeneidade, sendo a maioria de mulheres (43), tendouma ancião de 76 anos e crianças a partir de 10 anos. Até uma cadeiranteparticipou dos primeiros dias da caminhada. O maior número de participantesveio de Goiás e Pernambuco, que na verdade foi o berço da iniciativa.
Outracaracterística desta caminhada é a participação de vários membros de uma mesmafamília, e mesmo família inteira. Até um cachorrinho (Jorge) foi integrado àcaminhada, sendo uma atração à parte.
O queestá marcando também essa caminhada foi a perda de dois importantescaminhantes: Zé Claudio e Margarida. Temos a certeza de que se materialmentenão estão conosco, nos estão propiciando animo e energia no caminho. Em funçãodesses fatos também Antonio Alencar, idealizador e esteio em todas ascaminhadas, pela primeira vez não está participando. Porém podemos percebertoda sua energia e profunda mística nos alimentando no compasso da caminhada.
Comunidadequilombola de Bairro Alto,
Ilhado Marajó, 9 de janeiro de 2012
EgonHeck – pela equipe de comunicação da Caminhada Troca de Saberes
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