Olívio Dutra, o anti-Palocci
29/6/2011 15:13, Por Adital
Em um velho prédio numa barulhenta avenida de Porto Alegre, em companhiada mulher, vive há quatro décadas o ex-governador e ex-ministro Olívio Dutra.Em três ocasiões, Dutra abandonou seu apartamento: nas duas vezes em que morouem Brasília, uma como deputado federal e outra como ministro, e nos anos em queocupou o Palácio do Paratini, sede do governo gaúcho. Apesar dos diversoscargos (também foi prefeito de Porto Alegre), o sindicalista de Bossoroca, nosgrotões do Rio Grande, leva uma vida simples, incomum para os padrões atuais daporção petista que se refastela no poder.
No momento em que o PT passa por mais uma crise ética, dessa vez causadapela multiplicação extraordinária dos bens de ex-ministro Palocci, Dutracompletou 70 anos. Diante de mais uma denúncia que mina o resto da credibilidadeda legenda, ele faz uma reflexão: “Política não é profissão, mas uma missãotransitória que deve ser assumida com responsabilidade”.
De chinelos, o ex-governador me recebe em seu apartamento na manhã deterça-feira 14. Sugeriu que eu me “aprochegasse”. Seu apartamento, que ele dizter comprado por meio do extinto BNH e levado 20 anos para quitar, tem 64metros quadrados, provavelmente menor do que a varanda do apê comprado porPalocci em São Paulo por módicos 6,6 milhões de reais. Além dele, o ex-governadorpossui a quinta parte de um terreno herdado dos pais em São Luiz Gonzaga, naregião das Missões, e o apartamento térreo que está comprando no mesmo prédioem que vive. “A Judite (sua mulher) não pode mais subir esses três lances deescada. Antes eu subia de dois em dois degraus. Hoje, vou de um em um.” E porque nunca mudou de edifício ou de bairro? “A vida foi me fixando aqui. E fuiaceitando e gostando”.
Sobre a mesa, o jornal do dia dividia espaço com vários documentos, umabergamota (tangerina), e um CD de lições de latim. Depois de exercer um papelde destaque na campanha vitoriosa de Tarso Genro ao governo estadual,atualmente ele se dedica, como presidente de honra do PT gaúcho, à agenda dopartido pelos diretórios municipais e às aulas de língua latina no Instituto deFilosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Olatim é belíssimo, porque não tem nenhuma palavra na sentença latina que sejagratuita, sem finalidade. É como deveria ser feita a política”, inicia a conversa,enquanto descasca uma banana durante seu improvisado café da manhã.
Antes de se tornar sindicalista, Dutra graduou-se em Letras. A vontadede estudar sempre foi incentivada pela mãe, que aprendeu a ler com os filhos.E, claro, o nível superior e a fluência em uma língua estrangeira poderiamservir para alcançar um cargo maior no banco. Mas o interior gaúcho nunca oabandonou. Uma de suas características marcantes é o forte sotaque campeiro esuas frases encerradas com um “não é?” “Este é o meu tio Olívio, por isso tenhoesse nome, não é? Ele saiu cedo lá daquele fundão de campo por conta doautoritarismo de fazendeiro e capataz que ele não quis se submeter, não é?”,relembra, ao exibir outra velha foto emoldurada na parede, em que posam seustios e o avô materno com indumentárias gaudérias. “É o gaúcho a pé. Aquele quenão está montado no cavalo, o empobrecido, que foi preciso ir pra cidade edeixar a vida campeira”.
Na sala, com exceção da tevê de tela plana, todos os móveis são antigos.O sofá, por exemplo, “tem uns 20 anos”. Pelo apartamento de dois quartosacomodam-se livros e CDs, além de souvenires diversos, presentes de amigos oulembrança dos tempos em que viajava como ministro das Cidades no primeiromandato de Lula.
Dutra aposentou-se no Banrisul, o banco estadual, com salário de 3.020reais. Somado ao vencimento mensal de 18.127 reais de ex-governador, ele levauma vida tranquila. “Mas não mudei de padrão por causa desses 18 mil. Além domais, um porcentual sempre vai para o partido. Nunca deixei de contribuir”.
Foi como presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, em 1975,que iniciou sua trajetória política. Em 1980, participou da fundação do PT epresidiu o partido no Rio Grande do Sul até 1986, quando foi eleito deputadofederal constituinte. Em 1987, elegeu-se presidente nacional da sigla, época emque dividiu apartamento em Brasília com Lula e com o atual senador Paulo Paim,também do Rio Grande do Sul. “Só a sala daquele já era maior do que todo essemeu apartamento”.
Foi nessa época que Dutra comprou um carro, logo ele que não sabe e nemquer aprender a dirigir. “Meu cunhado, que também era o encarregado da nossaboia, ficava com o carro para me carregar.” Mas ele prefere mesmo é o ônibus.”Essa coisa de cada um ter automóvel é um despropósito, uma impostura daindústria automobilística, do consumismo”. Por isso, ou anda de carona ou decoletivo, que usa para ir à faculdade duas vezes por semana.
“Só pra ir para a universidade, gasto 10,80 reais por dia. Como mais de16 milhões de brasileiros sobrevivem com 2,30 reais de renda diária? Este paísestá cheio de desigualdades enraizadas”, avalia, e aproveita a deixa paracriticar a administração Lula. “O governo não ajudou a ir fundo nas reformasnecessárias. As prioridades não podem ser definidas pela vaidade do governante,pelos interesses de seus amigos e financiadores de campanha. Mas, sim, pelosinteresses e necessidades da maioria da população”.
O ex-governador lamenta os deslizes do PT e reconhece que sempre haveráquestões delicadas a serem resolvidas. Mas cabe à própria sigla fazer ascorreções. “Não somos um convento de freiras nem um grupo de varões dePlutarco, mas o partido tem de ter na sua estrutura processos democráticos paraevitar que a política seja também um jogo de esperteza”.
Aproveitei a deixa: e o Palocci? “Acho que o Palocci fez tudo dentro dalegitimidade e da legalidade do status quo. Mas o PT não veio para legitimaresse status quo, em que o sujeito, pelas regras que estão aí e utilizando deespertezas e habilidades, enriquece”.
E o senhor, com toda a sua experiência política, ainda não foi convidadopara prestar consultoria? Dutra sorri e, com seu gestual característico,abrindo os braços e gesticulando bastante, responde: “Tem muita gente com menosexperiência que ganha muito dinheiro fazendo as tais assessorias. Mas não querosaber disso”.
Mas o senhor nunca recebeu por uma palestra? “Certa vez, palestrei numaempresa, onde me pagaram a condução, o hotel e, depois, perguntaram quanto euiria cobrar. Eu disse que não cobro por isso. Então me deram de presente umacaneta. E nem era uma caneta fina”, resumiu, antes de soltar uma boa risada.
Matérias Relacionadas:
- Governistas vão pedir a Marco Maia anulação da convocação de Palocci
- Marco Maia suspende convocação de Palocci até terça-feira
- “Talvez seja hora de Palocci falar”, diz líder do PT
- Força Sindical diz que com saída de Palocci governo se livra de problema
- Casa Civil envia pedido de demissão de Palocci para Dilma
