O caminho obrigatório das empresas neste novo século

20/2/2008 15:34,  Nádia Rebouças


O sucesso da última Conferência do Ethos, que aconteceu em São Paulo entre os dias 4 e 7 de junho, não deixa dúvida sobre a crescente consciência empresarial da importância da gestão socialmente responsável. A Conferência levou Stephan Schmidheiny, da Fundação Avina, para realização da palestra de abertura oficial do evento.

Stephan começou por anunciar números de recentes estudos realizados pela ONU envolvendo cientistas multidisciplinares que desenharam cenários futuros para o planeta. O pior cenário aponta para uma situação na qual 70% da superfície do planeta estará comprometida em 30 anos se permanecerem os paradigmas atuais e, o que é ainda mais grave, mesmo com muitos esforços que a humanidade realize a situação não será muito melhor: 50% da superfície do planeta estará comprometida nos mesmos 30 anos.

Em função desse futuro identificado, a responsabilidade social e o conceito de sustentabilidade são temas para reflexão empresarial. Stephan destacou o momento econômico que valorizou o mercado global, mas sem ter uma visão global de desenvolvimento.

Dois conceitos apresentados por ele podem nos levar a reflexões interessantes: ecoeficiência e solidariedade egoísta (conceito que tomou emprestado dos Jesuítas Venezuelanos). A forma de agir da economia global leva a investimentos de 1 bilhão de dólares por dia do governo americano em subsídios agrícolas, numa ajuda que intensifica a distância entre agricultores do Primeiro Mundo e dos países emergentes. Aliás, a cada vez que escuto essa expressão tendo a sentir arrepios: não são países emergentes, são países com suas economias controladas para impedir o desenvolvimento. Michael Bailey, da Oxfam, numa entrevista a revista Veja de 22 de maio de 2002, deixa claro o motivo de lançar a campanha de Comércio Justo: 1% de aumento nas exportações dos países da África trariam mais riqueza do que o investimento atual das organizações humanitárias do Primeiro Mundo. Como diz Stephan, estamos sofrendo ainda mais devido à miopia das nações poderosas, que insistem num sistema econômico e político que torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

“É do meu interesse criar um ambiente de SOLIDARIEDADE EGOÍSTA”. Com essa frase Stephan acorda os mais céticos: cuidar do planeta, prover sua vida e trazer os mais pobres para o mercado é o desafio para o empresário consciente. Ele acredita, e eu também, que vivemos um momento em que a empresa que dispõe de conhecimentos, capacidade de gestão e tecnologia deve se unir às ONGs que conhecem a pobreza, as dificuldades educacionais e a violência para encontrar soluções inovadoras de interferência no social.

O desafio é encontrar novas formas de parcerias que profissionalizem as ONGs e tornem as empresas participantes ativos do desenvolvimento social. É necessário promover o diálogo entre essas duas culturas para que juntas elas possam pressionar a burocracia corrupta do Estado e o mundo político, que na sua opinião é o segmento mais atrasado da sociedade mundial. A exigência atual já é a transparência, regras claras e a necessidade de ter uma mídia ajudando a criar novas lideranças, fazendo com que os novos conceitos de sobrevivência sejam entendidos.
Gostei muito de sua firmeza ao declarar que “o mundo está mudando e temos que contagiar o maior número possível de parceiros para a construção de um novo mundo”.

A qualidade da gestão pode ser medida pela ecoeficiência. Tornar o mundo socialmente responsável pode garantir maior sucesso para empresas. Stephan convocou as empresas a “fazer agora para não ter que imitar depois”. As empresas produzem para 22% da população mundial, 78% não participam do mercado. Não basta a caridade, temos que trazer a população pobre para o mercado. Stephan registrou, ainda, o crescimento da consciência e participação da população mundial, que passa a pressionar de forma mais organizada as formas perversas da globalização, e livros como No Logo de Naomi Klein. El

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