Entendi ou intendi ?

9/12/2011 20:27
Por Rui Martins, de Genebra


Reprodução

Depois de um mês e meio em São Paulo, colunista descobre que todos estão bem informados, inteligentes e de rápida compreensão, graças a um vício de linguagem.

Neste mês e meio de São Paulo e interior paulista, uma coisa percebi: praticamente todas as pessoas com as quais falei mostraram-se bem informadas, inteligentes ou de rápida compreensão.

Nos primeiros dias, achei um tanto estranho mas logo me habituei. Fosse pessoalmente ou pelo telefone, as pessoas em lugar de dizerem « sim, sim » em sinal de assentimento, ou aquele maçante « hamham » no telefone, diziam sempre « entendi ».

Como se tivessem todas combinado, na casa de familiares, na rua, no taxi, na livraria, na padaria, era só eu fazer uma afirmação ou contar qualquer bobagem, nessas conversas sem compromisso que se trava num ônibus ou no metrô, e vinha sempre « entendi! ».

Mas entendeu o quê ?, dava vontade de dizer, pois não tinha feito nenhuma pergunta. Quando constatei ser uma reação geral, me veio a idéia de terem sido acometidos meus concidadãos da metrópole de uma epidemia oral, incontrolável, passageira (como todo modismo linguístico) mas inquietante.

Pior que o pensamento único, é ouvir-se todo mundo, como numa orquestra bem regida, dizer e repetir a mesma coisa. E, na tentativa de localizar a procedência e o mecanismo provocador desse comportamento oral coletivo, imaginei que poderia ser alguma telenovela, mas não parece haver nenhum personagem com o cacoete de dizer « entendi, entendi » a todo momento.

De onde saiu essa identificação geral com a primeira pessoa do particípio perfeito do verbo entender ? Quem começou a dizer « entendi » e por que acabou sendo imitado por todos? Não pude localizar o agente desencadeador e nem poderia, numa cidade de doze milhões de pessoas que, maquinalmente, dizem « entendi », quando ninguém lhes pergunta se entenderam.

Encontrei um amigo, versado em semântica e vícios de linguaguem, e lhe perguntei que seria um modismo. E, para meu desespero, ele que é universitário, dono de um grande vocabulário, me respondeu com uma afirmação redundante :

Com certeza!

Desespero, porque, antes do « entendi », na minha viagem precedente, todo mundo falava « com certeza! ».

De onde surgem essas expressões, que logo envelhecem como o « falou! », « beleza! » ? Se você sabe ou tem uma idéia, conte, porque acho uma « beleza », uma língua tão viva como a nossa, mas não « entendi » ainda o mecanismo de reprodução dessas expressões a ponto de afetarem quase a totalidade da população. Publicado originalmente no Direto da Redação

Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente em Genebra.






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13 Comentários para “Entendi ou intendi ?”

  1. João Ferreira

    Prezado Rui,
    Já que andas atrás do porguguês perfeito, permite-me observar que “entendi” não é o particípio perfeito do verbo entender. Pelo pouco que aprendi dessa lúngua portuguesa tão cheia de “armadilhas”, acho que é pretérito perfeito.

  2. joão borges

    Rui Martins você tem razão em afirmar que a nossa “tão viva e rica” em vocábulos as pessoas usam modismo. É falta de respeito e nacionalismo com a língua portuguesa. Parabéns pelo brilhante texto.

  3. Zezé Dias

    O vício linguistíco é uma verdadeira praga que inibe a culturabilidade daqueles que o pratica – difícil é saber a origem desse monstro degenerativo – ele tem uma extraordinária facilidade de massificar as pessoas incautas.

    A maioria das pessoas que se habituam a esse tão desagradável hábito tem personalidade dúbia, e sempre se deixam levar por qualquer lábia.

    É notável a evolução do Brasil em vários aspectos, mas no que concerne a uma efetiva evolução cultural, e sobretudo linguística, infelizmente; o nosso povo ainda está muito aquém! Também pudera: o que esperar do aculturamento do povo de um país, cujo Ministro da Educação e Cultura acha normal que se diz “NÓIS VAMO PEGÁ OS PEIXE”? – É uma verdadeira afronta à “última flor do lácio”!

  4. Jacqueline

    Gente, quanto stress com o “entendi”! Quando me mudei pra SP comecei a perceber isso nas pessoas e quandodei por mim já estava com essa mania.. Minha irmã percebeu e me zuou.. aí parei um pouco.

    Mas o pessoal aqui nem percebe quando fala.. é quase natural..

    E sinceramente não acho que esse vício iniba a culturabilidade de quem o pratica.. mais leveza na vida neh pessoal!

    Abraço!

  5. Rafael Dantas

    Há uma grande diferença entre os manuais e realidade. Se todos fossem observar todas as normas da Língua Portuguesa com certeza estaríamos ferrados. Em segundo lugar temos que se levar em conta os desenvolvimentos da língua nas escalas geográficas. Eu que saí da capital paulista e vim para o interior tive um choque quando alguém chamou o farol (semáforo) de sinaleiro ou sinaleira, e não é que o objeto sinaliza mesmo! Em primeira instância julguei-os pelo meus preconceitos, pois o mais certo era do jeito que eu aprendi, do jeito que se fala no lugar de onde em vim! Mas um belo dia, estava eu lendo um livro de um grande romancista e ele colocou lá a tal palavra para a mesmo coisa e me caiu a ficha: eu é que sou burro mesmo, falta de conhecimento e pré-julgamentos. Soma-se a esta outras tantas passagens em que a língua me fez refletir sobre meus hábitos e conceitos de se falar e o dos outros. Me intriga mesmo é saber quais são ou foram as condições que determinaram as pessoas falaram assim.
    A questão colocada pelo leitor Zezé Dias sintomática: diz que o vício linguístico é uma verdadeira praga, que os pratica são pessoas incautas, de personalidade dúbia e que sempre se deixam levar por qualquer lábia. Das duas uma: ou ele está ludibriado pelos preconceitos linguísticos elitistas, enfadonhos e arcaicos ou então estamos todos ferrados literalmente.
    Nós fossemos enveredar pelos manuais, deixando de lado desenvolvimento da língua viva, da língua real, aquela praticada pelo povo, que muitos, os sabichões chamam de incautos, estaríamos falando Vossa Mercê até os dias de hoje. Observemos o que disse o leitor João Ferreira. Zezé Dias chama o dito cujo ministro de Ministro da Educação e Cultura. Meus caros, há muito se dividiu esta pasta entre Ministério da Educação e Ministério da Cultura, devido ao desenvolvimento institucional da máquina estatal, máquina não é um torno, muito menos de costurar roupas. Mas as pessoas ainda chamam o tal assim, o próprio ministério se utiliza da antiga sigla (MEC), eu pergunto, isto é correto?

  6. Severino Rocha

    Bom, em linhas gerais, todo vício é ruim, salvo aqueles que são bons. Sim, porque geralmente não se aplica às boas e edificantes manias/costumes o termo vício. É claro que toda linguagem é dinâmica, em constante modificação. Não obstante, soa-me desconfortável ouvir termos do tipo (citando apenas alguns): “vou estar enviando… para o seu endereço”; “você poderia ‘printar’ isto para mim? / ‘deletar’ ou mesmo ‘escanear’”, pois, no caso destes, são termos que existem no nosso vernáculo e que vemos sua substituição por outro, do mesmo sentido, só que em língua extrangeira. Ou seja, desprezamos nossa língua, nosso vocabulário em favor do alheio. A isso eu chamo degeneração e não evolução de linguagem.

  7. Silvio C Tanaka

    Como você perguntou eu lhe respondo; Entendi !!!!!. Achei muito interessante este modismo “meu”, pois em São Paulo todo mundo fala “com certeza” quando você comenta algo e no fim “Entendi”. Acredito também que um pouco se deve a forma e o tom de voz que é utilizado nas conversas que fazem com que as pessoas entendam a conversa como uma pergunta. Entendeu???
    Desculpe pela brincadeira durante os comentarios é que eu me lembro do meu irmão que utliza sempre o “entendeu” quando nos falamos sem que eu lhe tenha feito uma pergunta.
    Abraços

  8. Alexandre de Souza

    Sem dúvida o português brasileiro é um idioma muito rico, graças às nossas diferentes regiões, etnias e culturas, o que nos proporciona uma enorme diversidade de expressões, sejam fixas a algumas regiões ou faladas em todo o território brasileiro. Não acho que essas variações em nossa língua estejam degradando nosso vocabulário, e sim tornando-o cada vez mais diversificado e único.

    O problema é quando a norma culta da nossa língua portuguesa é usada como meio de exclusão social, o que faz com que muitos não aceitem as variantes linguísticas regionais e populares. Não podemos esquecer que o mais importante é que haja comunicação entre os indivíduos, além de que a maneira como as pessoas falam pode denunciar muito da cultura de uma pessoa e do local onde ela reside.

    Parabéns ao autor desta matéria! é muito interessante tocar neste assunto para discutirmos e refletirmos a seu respeito.

  9. Gileno

    Quanto purismo exacerbado! Os donos da verdade! Os ditadores da língua! “Testículo” ridículo!

  10. Brasil de Abreu

    Os vícios em nosso idioma são muitos. ”Falô”, ”beleza”, etc, e alguns respondem apenas com duas letras: ”OK”, ”Tá” e outros com palavras: ”Perfeitamente”, ”Valeu”, etc. Este nosso portugues, é cheio de ”mumunhas”, as redundâncias são até válidas, como na expressão Sou eu, (poderia alguém dizer ”sou ele”?), Eu vou, Eu fui, Ele foi, etc. Então analisar o que?

  11. Paulo Robereto Marques Gomes

    O povo vive a procura de novidades que expressem uma comunicação mais simplicifica e até divertida, que é passada adiante ´na maioria das vezes, pela mídia, nas novelas e vira modismo, regridindo a sua utilização linguística com o passar do tempo..A exemplo disso tivemos o “com certeza”, “Não é brinquedo não”, “sangue bom”, “alemão”, “cauê”,”segura peão”, “fui”,o gerundismo americano tal como “Eu vou estar falando com ..”, que alastrou-se pelo Brasil como uma epidemia endêmica e não apenas regionalmente.Quando a escuto de telefonistas e atendentes, até hoje me tira do sério.
    Sabemos que há expressões linguísticas utilizadas em comunidades, que criam o que eles podem chamar de seu, de uma sociedade comunitária “a parte”, visando diferenciar-se e valorizar-se, como uma revolta, uma reação as diferenças sociais.A linguagem dos surfistas, dos motoqueiros, dos jovens na comunicação virtual. Essa última um verdadeiro atentado a qualquer forma de expressão.É o erro proposital, para impactar, para incomodar e debochar.Esses não tem alcance junto a massa.O povo vive atrás de novidades para aparecer e é repassador eficaz de expressões utilizadas por seus ídolos, pois gostariam de ser como eles e naquele momento o estão incorporando.Bem, é isso.

  12. Notarc

    Rui, nada entendi…

  13. Marcia Eloy

    Eu acho que o autor poderia visitar o Museu da Lingua Portuguesa em São Paulo e verificar a formação diversificada da nossa lingua e as diferenças da lingua em cada região brasileira.è isto que faz nossa lingua riquíssima. Não falamos portugues de Portugal há muito tempo.Temos a lingua afro, tupi, alguimas árabes no nosso vocabulário, fora as diversas expressões regionais.Se falássemos a lingua como o portugues fala, não entenderíamos o sentido da frase na rapidez que entendemos, ficaríamos enquadrados como eles ficam na formação da frase, por isto há tanta piada de portugues.Minha filha , estando em Sintra, Portugal,dirigindo um carro, perguntou a um guarda: posso parar aqui? Resposta do guarda: parar pode, tanto que estas parada, o que não pode é estacionar. Entenderam?