Nara e Elis: duas vozes, o mesmo país
20/1/2012 10:47, Por Redação, com Vermelho.com
Elis Regina desafiava as notas altas com talento e foi uma estrela de máxima grandeza. Nara teve uma carreira ilimitada apesar da voz limitada nos agudos e graves. Embora nunca tenham sido amigas – e os motivos para o fato são discutíveis – quis a história, essa tirana, que as duas compartilhassem uma data em comum, 19 de janeiro, aniversário de Nara, morte de Elis em 1982. Nara faria 70 na quinta-feira.
– Um dia ou a gente se enquadra ou pega estrada– preconizou o escritor e beatnik Jack Kerouac, referindo-se a uma decisão que vem com a idade. Elis Regina e Nara Leão pegaram estrada aos 11 e jamais se enquadraram. Nara, porque ganhou um violão que enfiou embaixo do braço e saiu por aí. Elis porque na mesma idade começou a cantar em programa de rádio para crianças, O Clubi do Guri. A primeira nasceu no Espírito Santo, em 1942, cresceu em Copacabana quartel-general da bossa nova, a segunda nasceu em 1945 no Rio Grande do Sul, cresceu no Brasil da MPB.
Nara e a bossa nova se confundem. Ela foi considerada a musa do movimento e arregimentou os “narólogos”. Ou os apaixonados por seus joelhos que, comportadamente, ficavam à mostra enquanto a moça tocava violão no banquinho.
No programa Ensaio, da TV Cultura, Nara recorda que Insensatez foi uma das primeiras músicas populares no grupo de bossa nova, ainda amador na época. Elis Regina também gravou a música de Tom Jobim, mais de dez anos depois.
Tom Jobim
Corcovado foi outra bossa do Tom que conquistou uma e outra, a suave e a irreverente. O maestro foi parceirão das duas em tempos diferentes, de Nara logo cedo, quando a bossa nova ainda dizia a que vinha e ganhava um contorno conceitual com o “desafinado” de João Gilberto. Foi admiração mútua, tanto que das 24 músicas selecionadas para um disco de Nara em 1971, 19 eram do Tom, uma delas, Corcovado.
Em 1974, Elis Regina convidou o maestro para gravar um LP só de duetos, entrou para a história. Corcovadoestava na lista das músicas, aliás, já estava no repertório de Elis desde 1972, quando foi muito bem apresentada em um show na Itália.
A banda passou
Na década dos grandes festivais de música, 1960, as duas e todos os grandes nomes da música brasileira se cruzavam nos bastidores da TV Record, palco do evento. Num desses esbarrões, Elis Regina conheceu Chico Buarque, mas acabou desistindo de gravá-lo devido à impaciência com a timidez do compositor, confessou.
Já Nara e Chico entraram em sintonia justamente por causa da timidez, bom, a história dos dois é conhecida e longa, começa quando a musa da bossa nova o lançou. Em 1966, apresentaram A Banda, de Chico, na 2a edição do festival da TV Record.
Na verdade, Nara iria cantar sozinha, mas quando Manoel Carlos, o dramaturgo e amigo da dupla, ouviu o arranjo instrumental, deu a dica para Chico cantar. A voz de Nara seria abafada pelos instrumentos. Deu certo! Chico começa, Nara arrebenta.
A voz maior e a letra mais linda
Em 1968, na 3ª edição do festival, Elis ganhou prêmio de melhor intérprete, e subiu ao palco pouco antes de Nara Leão, que ganhou pela melhor letra, de Sidney Miller.
Bôscoli e o barquinho
Ronaldo Bôscoli, o primeiro amor de Nara, ela tinha cerca de 16 anos, dedicou-lhe a canção Lobo bobo e Se é tarde me perdoa, quase se casaram, não fosse a impetuosidade de Maysa, que embalouo moço pra presente e anunciou à mídia um casamento que nunca houve.
Nara e Bôscoli estavam comprometidos quando os jornais deram a manchete. A cantora não se fez de rogada, ignorou explicações do noivo e foi à luta. De Bôscoli, ficou para o grande público fã de Nara, a gravação de O barquinho, reprodução poética de uma cena real de quando os dois namoravam e quase naufragaram, com Menescal no mesmo barco, o autor da melodia.
Elis, outra coincidência entre as duas, também amou Bôscoli — muito a contragosto, porque tinha uma antipatia pessoal pelo músico antes de conhecê-lo — e com ele se casou em 1967, tiveram um filho, João Marcelo. Em 1971, apresentou sua versão de O barquinho na Itália. O casamento naufragava como na cena em que a canção foi originariamente concebida.
O barquinho – Elis – 1972 – Itália
Anos de chumbo
Em 1964, Nara Leão já havia deixado a moça, o sorriso e a flor de lado, por influência de Carlos Lyra, que era da esquerda e da UNE. Protagonizou o show Opinião, com direção de Augusto Boal. No repertório, a música do morro tem vez, com Zé Keti e João do Vale assinando as composições. Foi considerado subversivo.
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No Brasil todo mundo é gênio… basta fazer uma coisinha qualquer. O ambiente altamente explosivo dos anos sessenta dividia a nação ipanemense em dois blocos… quem não era de esquerda, era burro, não tinha talento, atrasado. E quem abertamente se assumia vermelhinho era incensado pela mídia. Poucos artistas conseguiram fugir da vigilância de esquerda. Nesse ambiente era difícil julgar a qualidade de quem quer que se apresentasse publicamente. Fossem escritores, jornalistas, cantores, pintores…
As duas citadas no artigo podem ser catalogadas como egressas desse ambiente rarefeito. Uma delas, pequenina, gorducha, dentuça, simpática e altamente desafinada. A outra, também pequenina, esquentada e gaúcha… mas com belo timbre e poder vocal. Bem diferentes, mas de sucesso imediato, quiçá, a simpatia e empatia com o público. Mas, geniais? Achamos um exagero, coisa da patota vermelha de Ipanema. Hoje, com a poeira do tempo assentada, podemos examinar melhor essas intérpretes e nenhuma delas chega aos pés de uma Elizeth Cardoso, ou uma Dalva de Oliveira. Estas duas, também , não podem ser consideradas geniais. Apenas todas elas, boas cantoras e intérpretes exatas. Para o mundinho brasileiro-carioca, elas bastavam. Podemos compará-las , por exemplo com Edith Piaf? Com Ella Fritzgerald? Com Libertad Lamarque? Com Sarita Montiel? Não, me perdoem, mas ainda temos que correr (cantar) muito para chega lá…
Pelo amor de Deus!!!!! Mas quanta heresia!!!! ELIS VIVE!!!!! Não só na nossa memória,mas principalmente nos corações daqueles que tiveram o privilégio de vê-la ao vivo, em shows fantásticos, onde toda a sua humanidade e talento era compartilhado com um público extasiado!!!!! Infelizmente não estava lá…era criança….mas mesmo tão pequenina , sua voz ,sua força e emoção , tocaram fundo naquele coraçãozinho infantil!!!! Ah… e Nara vive tb!!!!
Elis Regina, me faz ter orgulho de ser brasileiro, ela própria dizia “não tenho vergonha de cantar samba, tenho um orgulho lascado de se brasileiro”… Agora meu colega Ronaldo Rego vem dizer que ninguém no Brasil se compara a tal cantoras acima? A própria Ella Fitzgerald disse certa vez que Elis era uma das “cinco maiores cantoras do mundo”. Pelo amor de Deus! se muda para América do Norte companheiro! Viva Elis, viva Nara, Gal, Bethânia… Viva a genealidade da música no Brasil!