Rio de Janeiro, 04 de Setembro de 2026

Nada de novo na entrevista da Dilma Rousseff ao Jô

Por Gilberto de Souza - É fato que a entrevista da Dilma ao Jô, diante do que preconizaram os líderes do Partido dos Trabalhadores (PT) durante o último congresso da legenda, não significa congelar a iniciativa pela edição dos marcos regulatórios da Comunicação no país.

Domingo, 14 de Junho de 2015 às 13:38, por: CdB
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Jô, bola da vez para entrevistar a presidenta Dilma
Por tudo o que li, ouvi e apurei sobre a TV Globo, em meus quase 40 anos de carreira, nada na Organização acontece por acaso. A cadeia de TV, jornais e revistas que abocanha mais de 80% de toda a verba pública e privada de publicidade, no país, teve um comando único no tempo do finado Roberto Marinho, adaptou-se rapidamente após o fim do longevo imperador e, feito qualquer bactéria, luta para permanecer viva, impregnada aos ossos da ditadura passada, até não restar nada além do que a democracia que ora se estabelece. Como todo império, nasceu nos anos de chumbo, floresceu no neoliberalismo e experimenta, hoje, os primeiros raios do ocaso em uma sociedade mais madura e democrática. A empresa que produz conteúdo no país e no exterior, com lastro de bilhões de dólares em contas bancárias, uma administração profissionalizada e blindada por décadas de bons serviços prestados ao regime imposto, aqui, com o auxílio interessado dos Estados Unidos da América (do Norte), essa estrutura não brinca em serviço. Na TV, principal arrecadadora do lote publicitário nacional, uma grade de 24 horas por dia, de segunda a domingo, garante a produção de jornais, novelas e programas de entrevista como este, do Jô Soares. Qualquer um dos produtos servirá, obviamente, como válvula de escape política da família Marinho, como nas das panelas de pressão, em caso de queda nas margens de lucro ou sob o risco de implodir, diante da opinião pública. No caso do Jô Soares, creio piamente na máxima que pontua: "Ninguém dorme Botafogo e acorda Flamengo". Se em todos os programas jornalísticos da emissora em que ele trabalha, e ganha um régio salário por isso, a presidenta Dilma Rousseff é confundida com a Geni, do clássico de Chico Buarque de Hollanda, Jô serviu, agora, de contraponto. Foi a bola da vez. Aconteceu coisa parecida na entrevista após as eleições de 2010 à loura Ana Maria Braga e ao Louro José, na qual a novata no Planalto fez omeletes e jogou conversa fora, ainda sem o advento dos panelaços. Certo que, dessa vez, a situação anda mais tensa. Ameaçaram até afrontar a Lei do Silêncio pra fazer 'panelaço' de madrugada. Sorte que os desatinados desse país, por mais de direita que possam ser, ainda preferem comemorar o Dia dos Namorados com outras coisas na mão, além de tampa e frigideira. Aí, a estratégia do ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, de escolher o programa e o horário, funcionou tão bem quanto a decisão de falar aos trabalhadores apenas pela internet, pontuando a rede como o segundo meio de comunicação de massas mais importante do país, depois da TV. É fato que a entrevista da Dilma ao Jô, diante do que preconizaram os líderes do Partido dos Trabalhadores (PT), durante o último congresso da legenda, não significa congelar a iniciativa pela edição dos marcos regulatórios da Comunicação no país e, cá entre nós, o Gordo não engana ninguém. Tal qual sua colega matutina, o apresentador noturno bate palmas para os conservadores e não será o beijinho na Dilma que o fará abrir mão dos milhões que pingam em sua conta corrente, há décadas. O que ele tratou de fazer, ao abrir espaço para a nova mandatária, foi cumprir à risca uma ordem superior e, assim, manter o emprego e o prestígio na emissora. Não será também uma entrevista, no meio da madrugada, que terá a capacidade de mudar coisa alguma no curso dos acontecimentos, como na inexorável expansão da internet sobre os jornais, revistas e a TV. Muito menos será o discurso um tanto disléxico da presidenta, em defesa do entendimento entre a força do trabalho e a mais-valia do capitalismo, que deterá o avanço de uma sociedade mais fraterna e socialista. O que a Globo e, de certa forma, as demais empresas da mídia conservadora têm feito é buscar alternativas, as mais urgentes, para a revolução que se avizinha, tanto no âmbito das Comunicações quanto no horizonte social do país. Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.
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