Minas do Ouro
9/9/2011 18:38, Por Adital
No início dos anos 80, engravidei da pulsão de escrever umromance sobre a história de Minas Gerais. É assim: o tema de uma obra de ficçãonos agarra na esquina da vida. É como paixão à primeira vista. Ou a “eureka”dos gregos. Súbito, brota a ideia, e ela impregna o sentimento e gruda nasdobras da subjetividade. Ali germina até que se consiga dar vazão à pulsão.
Meu projeto inicial era escrever um romance ambientado namina de Morro Velho, em Nova Lima. Ali acampei quando escoteiro. Dali ouvihistórias mirabolantes de desabamentos, inundações, mortes, e muita pobreza emmeio à riqueza gerada pela mais profunda mina de ouro do mundo.
A cozinheira de minha família, Ana, era de Raposos e, seusparentes, quase todos empregados da Morro Velho. Dela escutei incríveis relatosdo que ocorria naqueles subterrâneos em que se extraíam ouro das galerias esaúde dos trabalhadores.
Graças à colaboração de Christina Fonseca e Maione R.Batista, entrevistei ex-empregados da mina e, em especial, Dazinho, lídersindical de Morro Velho que se elegeu deputado estadual e, mais tarde, teve omandato cassado pela ditadura, que o levou à prisão.
Tive acesso a livros raros sobre a história da mina, amanuscritos antigos, a mapas e até papéis de contabilidade, e retornei a ela umpar de vezes.
Uma coisa leva à outra. De Morro Velho minha pesquisa seampliou para a história das Minas e das Gerais. Devorei, calculo, cerca de 120livros, entre os quais o Códice Matoso, Autos da devassa, os volumes dascoleções Mineiriana e Brasiliana, textos de Diogo de Vasconcelos, Lúcio dosSantos, Iglesias, Boschi, Neusa Fernandes, Laura de Mello e Souza, Myriam A.Ribeiro de Oliveira, Júnia Ferreira Furtado etc.
Em 1997 iniciei a redação de Minas do Ouro. Havia quetransformar os dados coletados em texto literário. Escrever é como cozinhar:reúnem-se os ingredientes e, em seguida, faz-se a mistura (aqui, o talento doescritor) e deixe fermentar até que a massa chegue ao ponto (aqui, o estilo, o”sotaque” narrativo). Admito que os Sermões do padre Antônio Vieira meinspiraram na busca da linguagem adequada a cada período dos cinco séculos queo romance abrange.
Foram 13 anos de trabalho, sempre de olho nas novidadeseditadas sobre a história de Minas, como os textos de Luciano Figueiredo e aHistória de Minas Gerais – As Minas Setecentistas, organizado por MariaEfigênia Lage de Resende e Luiz Carlos Villalta.
Não é fácil elaborar um romance histórico. Meu primeiro foiUm homem chamado Jesus (Rocco), em que descrevo a vida do homem de Nazaré. Alienfrentei o desafio de tratar de um personagem cuja trajetória o leitor conhecede antemão.
Qualquer desatenção ea narrativa vira ensaio amador com pitadas de ficção. Os fatos históricos deMinas são tão empolgantes (bandeiras, guerra dos emboadas, Triunfo eucarístico,conjuração etc), que no percurso se é tentado a deixar a realidade dos fatosfalar mais alto que os voos da imaginação.
Como não sou historiador, tratei de centrar a narrativa nasaga da família Arienim. Os fatos históricos de Minas ficaram como pano defundo. Os leitores dirão se acertei na receita e se ficou saborosa. Fora oscabotinos, nenhum autor é juiz da própria obra.
Minas do Ouro é uma narrativa de anti-heróis. Romanceshistóricos –gênero surgido na Inglaterra no século 18– costumam exaltarprotagonistas, incensar poderosos, ocultar fraquezas e desacertos de figurascélebres.
Em Minas do Ouro procurei demitizar personagens históricos,situá-los com os pés no chão e não nos pedestais dos heróis da pátria, erealçar a inusitada trajetória da família Arienim em busca de um tesouro queproduziria a alquimia de suas vidas.
Resta acrescentar que meu encanto pela história da terra emque nasci se aprofundou graças à influência de meu pai, Antônio Carlos VieiraChristo, de cuja biblioteca herdei boa parte da bibliografia concernente aoromance, e de Tarquínio Barbosa de Oliveira, historiador, em cuja Fazenda doManso, em Ouro Preto, passei inesquecíveis temporadas.
[Frei Betto é escritor, autor de Minas do Ouro, que aeditora Rocco faz chegar esta semana às livrarias.http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.
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