Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime

26/11/2010 19:35,  Por José Cláudio Souza Alves - do Rio de Janeiro

Nós que sabemos que o “inimigo é outro”, na expressão padilhesca, não podemos acreditar na farsa que a mídia e a estrutura de poder dominante no Rio querem nos empurrar.

Achar que as várias operações criminosas que vem se abatendo sobre a Região Metropolitana nos últimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem, representado pelas forças publicas de segurança, e o mal, personificado pelos traficantes, é ignorar que nem mesmo a ficção do Tropa de Elite 2 consegue sustentar tal versão.

O processo de reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro vem ocorrendo nos últimos 5 anos.

De um lado Milícias, aliadas a uma das facções criminosas, do outro a facção criminosa que agora reage à perda da hegemonia.

Exemplifico. Em Vigário Geral a polícia sempre atuou matando membros de uma facção criminosa e, assim, favorecendo a invasão da facção rival de Parada de Lucas. Há 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se pacificaram pela ausência de disputas. Posteriormente, o líder da facção hegemônica foi assassinado pela Milícia. Hoje, a Milícia aluga as duas favelas para a facção criminosa hegemônica.

Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em várias favelas. Sabemos que as milícias não interromperam o tráfico de drogas, apenas o incluíram na listas dos seus negócios juntamente com gato net, transporte clandestino, distribuição de terras, venda de bujões de gás, venda de voto e venda de “segurança”.

Sabemos igualmente que as UPPs não terminaram com o tráfico e sim com os conflitos. O tráfico passa a ser operado por outros grupos: milicianos, facção hegemônica ou mesmo a facção que agora tenta impedir sua derrocada, dependendo dos acordos.

Estes acordos passam por miríades de variáveis: grupos políticos hegemônica na comunidade, acordos com associações de moradores, voto, montante de dinheiro destinado ao aparado que ocupa militarmente, etc.

Assim, ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadan Husein, e depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?

Ela é simplesmente uma guerra pela hegemonia no cenário geopolítico do crime na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

As ações ocorrem no eixo ferroviário Central do Brasil e Leopoldina, expressão da compressão de uma das facções criminosas para fora da Zona Sul, que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimpíadas.

Justificar massacres, como o de 2007, nas vésperas dos Jogos Pan Americanos, no complexo do Alemão, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a existência de várias execuções sumárias é apenas uma cortina de fumaça que nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda, porque oculto e hegemônico.

Ônibus e carros queimados, com pouquíssimas vítimas, são expressões simbólicas do desagrado da facção que perde sua hegemonia buscando um novo acordo, que permita sua sobrevivência, afinal, eles não querem destruir a relação com o mercado que o sustenta.

A farsa da operação de guerra e seus inevitáveis mortos, muitos dos quais sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no tabuleiro geopolítico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar que ausência de conflitos é igual à paz e ausência de crime, sem perceber que a hegemonização do crime pela aliança de grupos criminosos, muitos diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Milícias provou, perpetua nossa eterna desgraça: a de acreditar que o mal são os outros.

Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime? Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos faz esquecer que ela tem outra finalidade e não a hegemonia no controle do mercado do crime no Rio de Janeiro?

Mas não se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade.

Sempre sobrará a massa arrebanhada pela lógica da guerra ao terror, reduzida a baixos níveis de escolaridade e de renda que, somadas à classe média em desespero, elegerão seus algozes e o aplaudirão no desfile de 7 de setembro, quando o caveirão e o Bope passarem.

José Cláudio Souza Alves é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

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8 Comentários para “Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime”

  1. jefferson salles

    brilhante o artigo; a falta do poder publico de verdade, um poder público não excludente, um Estado que não leve holofotes e guerra, mas Educação, Lazer, Moradia, Oportunidades Igualdade Social, que não Discrimine – observaram os ¨bandidos em fuga, a grande maioria, negros- é a solução para esses conflitos. Há 500 anos vivemosem um país excludente, onde as oportunidades são para poucos, onde as leis e punições nunca atingem os mais ricos, mas sim os menos favorecidos. Qual a diferença entre os traficantes e os colarinho brancos que roubam,desviam verbas que poeriam ser usadas para a construção de escolas, hospitais? Esses roubam,roubam e continuam sendo recebidos com tapetes vermelhos, em catedrais, em festas regadas a uísque e carreironas brancas, nos palácios presidencais…os outros são recebidos à bala e a mídia e a sociedade em geral, apaude

  2. elis

    Belo e real texto. Quem é que vai mandar blindados em câmaras de vereadores, onde o presidente da mesma foi preso por tráfico de drogas, e pior, continua na sua cadeira; em empresas onde seus donos são traficantes, e assim por diante.O bandido sem camisa recebe tiro nas costas, e o bandido engravatado perpetua o crime. Vamos liberar as drogas de uma vez, pior do que tá não fica, e assim acabamos com o crime organizado, e vamos tratar esses dependes.

  3. Gustavo

    Concordo com o sociólogo.

    Mas faço a pergunta: é melhor crime com conflito ou crime sem conflito?

    Ou: a solução tem que ser “tudo ou nada”?

    Façamos como fazia Jack, vamos por partes. Cortando uma de cada vez….

    Não sou inocente. Sei que os motivos por trás são outros que não a proteção das comunidades mais carentes. É só ver o mapa das UPPs que veremos a “blindagem” feita na Zona Sul, com a Zona Norte a Deus-dará.

    Mas ainda acho que é melhor crime sem conflito do que crime com conflito.

    Acho que o discurso deveria ser “só isso não basta”.

    Seria mais produtivo.

  4. o pensador

    Já perguntava o sambista:”Como será o amanhã?Responda quem puder.O que irá me acontecer?…”O que vai acontecer a partir de agora? Para respondermos temos muitas outras indagações.Quem está sendo combatido no Cruzeiro:o crime ou uma das facções?Sendo uma enfraquecida,como ficam as demais?Quem troca tiros nas madrugadas nas favelas:polícia e bandido ou bandido e bandido?A polícia está dormindo ou coletando propina.Será que os policiais das UPP com suas fardinhas de exame de fezes conseguem manter o tráfico longe das favelas?Nem o BOPE consegue!Temos o Estado combatendo o crime ou trabalhando para uma das facções?Certo mesmo é que em seu verso:”O meu destino será como Deus quizer”- o sambista está totalmente errado,pois com certeza Deus não quer uma vida dessas pra nenhum de nós.

  5. Fernando

    Não acredito na solução da violência como tem sido vendida essa guerra do Rio, mas não concordo com a suposição de cortina de fumaça e meias informações sobre os bastidores, sobre a verdadeira intenção de alguns. Quem está atrás disso? Qualquer um pode escrever e dar a mesma opnião, não precisa ter doutorado para tanta mesmice.

  6. nikolas ribeiro

    Em nosso país existe vários setores que influenciam no rumo do Brasil, empreiteiros, multinacionais, Justiça e principalmente, banqueiros, estes não perdem, ditam a inflação, o que o povo vai comer, beber, se vai comer…
    O governo é refém dos particulares, cito como exemplo as empresas de segurança privada, faturam bilhões do governo e da sociedade em troca de uma “segurança”, o governo dos Estados chegam a pagar a empresa de segurança, até R$ 5.000,00 (cinco mil reais), sendo no máximo R$ 700, 00 reais ao vigilante, o restante é distribuído aos deputados, pessoas que tem o dever de fiscalizar esse tipo de falcatrua, chefe do executivo, cargos comissionados e por aí vai.
    Na saúde, mesma situação, o médico trabalha no Estado ou Município, ganha pouco e se desdobra para atender em mais 2 ou 3 hospitais particulares, onde na maioria são sócios, não havendo interesse algum em melhorar ou resolver a superlotação nos Hospitais do Brasil.
    Esse é o verdadeiro sistema da saúde e segurança, do pior melhor, desde que não chegue ao caos, pois aí, todos seriam atingidos e poderia haver uma revolução, revolta da população clamando por atendimento.

  7. Patrick araujo

    Concordo que por trás desta cortina de fumaça pode haver alguns interesses escusos, mas pense bem: Vamos parar o processo? vamos dar meia volta e fingir que nada ocorreu nesta semana? Vamos torcer para que o narcotráfico tome “juízo”, e não ataque mais os cidadãos de bem? faça-me um favor!!!! Não é hora de discursos “esquerdinhas”, (pera-lá….) chega uma hora que falar demais atrapalha e arregaçar as mangas de um jeito ou de outro é a única alternativa plausível, até porque nós sabemos todo o engodo que é nossa política, seu jogo sujo com o setor privado, promicuidade na licitações etc… O problema é que a gente vai debater isso nas urnas ou no congresso, não no asfalto com carro pegando fogo na pista!

  8. André

    hahaha então arregaçar as mangas é pegar em armamento pesado e tomar tudo a força? Aí fica fácil né…ainda mais com carro forte, arma importada, bazuca, helicóptero, marinha, exército, bope, polícia civil,…Isso é atitude de gente covarde e preguiçosa que não quer resolver o problema de verdade, aliás atitude de criança que não quer largar do doce de jeito nenhum (mesmo sabendo que vai fazer mal depois)….ninguém discute aqui por que o tráfico existe….ninguém aqui discute pobreza, ninguém aqui discute as leis…..engraçado, mas pode reparar que esses temas estão diretamente ligados…
    Enquanto houver miséria e pobreza, vai haver assassinato, assalto, sequestro, e por aí vai…e não é de se espantar, não podia ser diferente!!! agora eu digo, é isso que queremos enquanto sociedade?
    Antes de escolher um judas pra botar fogo, ou escolher um lado pra afirmar que é “do bem” ou “do mal”, vamos entender a situação e como estamos NÓS diretamente relacionados com tudo isso (o que o noticiario não fala….são sempre “eles”, “bandidos”)…e não “nós”, “sociedade”. E patrick, quer acabar com o narcotrafico? muito simples, é só deixar de ser proibido por lei que deixa de existir mercado ilegal…assim, tornaria mais dificil e menos arriscado de se obter qualquer tipo de substância, apenas através de estabelecimentos credenciados e especializados, disponível apenas para maiores de idade e regulado pelo governo, ao contrario de hoje em dia em que até crianças sobem a favela pra comprar). Mas engraçado, ninguém fala disso também….e dizem ainda que querem acabar com a violência…..hah, ta parecendo mais filme de comédia da tela quente….alias, e não é?

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